Na coluna ‘Cinema’, Marcos de Castro, crítico de cinema, diz que longa italiano é “gatilho para o coração”; ouça a resenha!
O filme italiano Novo Olimpo, lançado discretamente na Netflix no início de dezembro, tem sido celebrado pela crítica como um raro exemplo de amor à moda antiga no cinema contemporâneo LGBT. Baseado em fatos reais, o longa acompanha a trajetória de dois homens que se encontram por acaso e atravessam juntas quase cinco décadas de vida afetiva.
Encontro que muda destinos
A narrativa parte de um encontro em Roma, em 1978, quando Enéa, estudante de cinema que faz estágio em um set, conhece Pietro, estudante de medicina que está na cidade por causa de uma cirurgia da mãe. O olhar trocado entre os dois desencadeia um relacionamento que vai muito além de um romance passageiro: a trama acompanha o casal dos 20 aos 55 anos, mostrando como aquele primeiro encontro redefine a vida de ambos.
Estética, referências e trilha
O filme se apropria deliberadamente das técnicas e do lirismo do cinema italiano dos anos 1970, remetendo a melodramas como I Girasoli (Os Girassóis), de Vittorio De Sica. Em vez das narrativas mais óbvias que hoje circulam em produções LGBT, Novo Olimpo aposta na devoção ao afeto, na poesia das cenas e na fotografia romântica de Roma. A trilha, com nomes consagrados como Mina e Ornella Vanoni, reforça o tom clássico e emotivo da obra.
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Contexto social e recepção
Ambientado numa época de intensas mobilizações nas ruas, o cinema Novo Olimpo — que na história funciona como ponto de encontro para homossexuais — torna-se cenário de uma história privada em meio a transformações públicas. Apesar do reconhecimento da crítica e de prêmios na Itália, a produção teve divulgação reduzida, o que explica seu aparente “achado” na plataforma de streaming. A reação do público, entretanto, tem sido intensa: espectadores heterossexuais e homossexuais relatam identificação com os dilemas emocionais dos protagonistas e refletem sobre amores deixados para trás.
O filme surge, portanto, como uma pequena obra-prima para quem busca um romance afetuoso e clássico no cinema contemporâneo, resgatando técnicas do passado para contar uma história íntima que ecoa no presente.



