Estabilidade da gestante e a licença maternidade são direitos garantidos às grávidas, mas nem sempre seguidos pelas empresas
O mês de maio, dedicado às mães e marcado por uma série especial na CBN com o oferecimento do Ribeirão Shopping, trouxe à tona números e relatos sobre como a maternidade convive com o mercado de trabalho em Ribeirão Preto. Na terceira edição da série, a reportagem mostra que 255 mil trabalhadores movimentam a economia da cidade — 44% deles são mulheres em idade adulta e fértil — e questiona de que forma a proteção legal se traduz em segurança real para quem decide ter filhos.
Maternidade em risco no mercado de trabalho
A legislação brasileira prevê garantias básicas para mães trabalhadoras, como a estabilidade da gestante e a licença-maternidade, direitos válidos tanto para mães biológicas quanto adotantes. Ainda assim, um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas revela que quase metade das mulheres deixa o mercado de trabalho em até dois anos após a chegada do filho. Segundo pesquisadores, essa saída ocorre porque muitas mães não encontram um ambiente de trabalho que acolha as transformações ocasionadas pela chegada da criança.
Relatos pessoais: escolhas, dispensas e emoções
O impacto desse cenário aparece em histórias reais. A engenheira civil Ana Maria Vila Boas conta que trabalhava por contrato e esperava retornar após os quatro ou cinco meses acordados, mas teve o contrato não renovado. “Eu estava muito recente, eu não consegui voltar para procurar algum emprego. Psicológico estava muito abalado ainda com todas as novidades da maternidade”, relata. Com o apoio do marido, Ana optou por ficar em casa para cuidar de Beatriz, hoje com dois anos, e diz ter sentido frustração profissional.
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Outro relato é de Leovania Santos, auxiliar de departamento pessoal, que aos 34 anos teve o filho Daniel, que ela chama de “milagre”. De volta ao trabalho há três meses, Leovania afirma que, se pudesse, teria permanecido em casa por mais tempo, mas a necessidade financeira a levou a retornar. Ela mantém a amamentação e descreve a primeira despedida diária ao deixar o bebê na creche como um momento de muita saudade: “É um pedaço da gente que fica longe”.
Empresas, direitos e novas práticas
Desde a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, os direitos das trabalhadoras foram evoluindo, e muitas empresas adotam políticas mais acolhedoras. A doutora em administração Luciana Sankroviki destaca medidas além das garantias legais: horário flexível, suporte ao trabalho remoto com infraestrutura adequada — como internet e equipamentos ergonômicos — e, em alguns casos, psicólogo corporativo. Para a pesquisadora, esses recursos não são mera benevolência: “Esse comportamento mais compassivo tem a ver com a busca de melhores resultados”.
Segundo Luciana, benefícios que favorecem a mãe também beneficiam as empresas, pois aumentam o comprometimento do funcionário ao perceber valor nos serviços oferecidos. Ainda assim, o ajuste entre carreira e maternidade permanece delicado para muitas famílias, especialmente nos primeiros meses após o nascimento, quando a separação precoce entre mãe e bebê pode ser traumática.
As histórias ouvidas em Ribeirão Preto mostram que, apesar dos avanços, o equilíbrio entre trabalho e maternidade é construído socialmente e depende de leis, práticas empresariais e apoio familiar para garantir tanto a continuidade profissional quanto o bem-estar emocional das mulheres e de seus filhos.



