Quem fala sobre a atuação do açúcar no organismo é o médico cardiologista Fernando Nobre na coluna ‘CBN Saúde’
Uma pesquisa recente da Cleveland Clinic, Açúcar: um vilão ou aliado na manutenção da saúde?, nos Estados Unidos, levantou questionamentos sobre o consumo do adoçante eritritol, amplamente utilizado em produtos alimentícios sem açúcar e dietas cetogênicas, e seu possível impacto na saúde cardiovascular. O estudo sugere que o eritritol pode estimular uma resposta protrombótica, ou seja, aumentar a formação de trombos, o que pode representar um risco para pessoas com fatores de risco cardiometabólicos, como obesidade, hipertensão e diabetes.
Estudo e resultados: Publicado no periódico Atherosclerosis, o estudo envolveu 10 participantes saudáveis que ingeriram 30 gramas de eritritol. Trinta minutos após a ingestão, exames de sangue indicaram um aumento significativo na agregação plaquetária, processo fundamental para a formação de coágulos sanguíneos. Além disso, foram observados níveis elevados de marcadores de ativação plaquetária, incluindo a liberação dependente de estímulo de serotonina, um indicador relacionado aos grânulos densos das plaquetas.
“Em todas as pessoas, observamos um efeito protrombótico, isto é, a favor da formação de trombos em cada exame que fizemos”, afirmou o médico Stanley Heisen, presidente do departamento de ciências cardiovasculares e metabólicas da Cleveland Clinic e autor do estudo.
Em contraste, os participantes que ingeriram a mesma quantidade de glicose não apresentaram alterações semelhantes na agregação plaquetária. Segundo Heisen, o eritritol não ativa diretamente as plaquetas, mas reduz o limiar necessário para desencadear uma resposta, potencialmente aumentando a propensão à coagulação e, consequentemente, o risco de eventos cardiovasculares como infarto e acidente vascular cerebral (AVC) a longo prazo.
Mecanismo e hipóteses: O mecanismo exato pelo qual o eritritol promove essa resposta protrombótica ainda é desconhecido. No entanto, o pesquisador levantou a hipótese da existência de um receptor nas plaquetas que reconhece e é ativado por álcoois de açúcar, semelhante ao receptor de paladar para doces que identifica moléculas de glicose.
“Estamos muito interessados em descobrir qual é esse mecanismo, porque ele pode se tornar um alvo importante para futuras pesquisas, especialmente considerando sua associação com doenças cardíacas”, explicou Heisen.
Contexto regulatório e produção natural
O eritritol foi classificado em 2001 pelo Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos como um aditivo alimentar geralmente considerado seguro. Trata-se de um adoçante que ocorre naturalmente em alimentos como melão e uva, além de ser produzido pela fermentação de açúcares. Seu poder adoçante é cerca de 70% do açúcar comum. Além disso, pequenas quantidades de eritritol são produzidas naturalmente pelas células humanas a partir da glicose.
Análise crítica e implicações: Pesquisas anteriores conduzidas pelo grupo do Dr. Stanley Heisen já haviam associado o eritritol a um risco aumentado de eventos cardiovasculares graves relacionados à hipercoagulação. A nova pesquisa reforça essas evidências ao demonstrar efeitos protrombóticos mesmo em indivíduos saudáveis.
“Considero que esta foi uma pesquisa muito importante para ser feita em pessoas saudáveis”, comentou a Dra. Martha Files, professora assistente da Divisão de Ciências Nutricionais da Cornell University, que analisou criticamente o estudo, embora não tenha participado diretamente dele.
Esses achados indicam a necessidade de cautela no consumo de produtos adoçados com eritritol, especialmente por pessoas com fatores de risco para doenças cardiovasculares. A ciência e a pesquisa clínica continuam sendo fundamentais para identificar potenciais riscos e desenvolver orientações seguras para a população.
Entenda melhor
- Eritritol: álcool de açúcar usado como adoçante em alimentos sem açúcar e dietas cetogênicas.
- Agregação plaquetária: processo pelo qual plaquetas no sangue se unem, podendo formar trombos.
- Resposta protrombótica: aumento da tendência à formação de coágulos sanguíneos.
- Fatores de risco cardiometabólicos: condições como obesidade, hipertensão e diabetes que elevam o risco de doenças cardiovasculares.