Ouça o quadro ‘A cidade há 100 anos’, com Rosana Zaidan
Há um século, a cidade de Ribeirão Preto fervilhava com anúncios curiosos e ofertas que refletiam o cenário da época. Uma edição do jornal local, datada de 27 de julho de 1915, revela um panorama interessante da vida cotidiana, marcada por desafios econômicos e a busca por novas oportunidades.
Empréstimos e a Crise Financeira
Em 1915, a obtenção de empréstimos era uma prática comum, com anúncios direcionados a toda a região de São Simão até Garapava, na divisa com Minas Gerais. Um anúncio chamava a atenção: um senhor hospedado no Hotel Brasil oferecia até 50 contos de réis, mediante garantia hipotecária. Em outras palavras, o interessado em obter o empréstimo penhorava sua casa ou terreno como garantia. Essa prática, embora oferecesse uma solução imediata, evidenciava a crise que assolava o país, agravada pela Primeira Guerra Mundial e pela severa seca no Nordeste, que inspirou Raquel de Queiroz a escrever o romance “O Quinze”.
Oportunidades e Imigração Alemã
Apesar das dificuldades, o ano de 1915 também foi um período de efervescência empreendedora. Muitos buscavam abrir novos negócios, inclusive imigrantes alemães que se aventuravam fora das colônias de fazendas de café. Um exemplo notável foi o Sr. Fritz Fischer, que inaugurou um açougue e fábrica de salames alemães. Seus anúncios prometiam entrega em qualquer ponto da cidade e arredores, oferecendo uma variedade de produtos como torcinho defumado, salame, mortadela e a famosa linguiça de Viena. Para encomendar, bastava ligar para o número 494, na Rua do Comércio, 93.
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Até a Morte Sentia a Crise
A crise econômica era tão impactante que até mesmo os serviços funerários se adaptaram à realidade. A empresa funerária Mota, localizada na Rua Álvares Cabral, número 26, anunciou uma redução nos preços de seus serviços, dividindo os enterros em quatro categorias: primeira classe (a partir de 180 mil réis), segunda classe (a partir de 100 mil réis), terceira classe (18 mil réis) e a quarta classe, destinada aos mais pobres (10 mil réis), que consistia em um caixão modesto transportado por uma carrocinha. Essa divisão revelava as desigualdades sociais e as dificuldades enfrentadas pela população de Ribeirão Preto naquele período.
Os anúncios de 1915, aparentemente simples, pintam um retrato vívido de uma cidade em transformação, lutando contra as adversidades e buscando novas oportunidades em meio a um cenário global conturbado.



