Ivan Savioli Ferraz explica sobre como as mudanças podem influenciar na saúde dos pequenos; ouça a coluna ‘Filhos e Cia’
O impacto das mudanças climáticas na saúde e no desenvolvimento das crianças foi tema de entrevista no programa Filhos e Companhia com o pediatra e professor da USP, Dr. Iván Savioli Ferras. Em conversa com a equipe do rádio, o especialista relacionou eventos climáticos e alterações ambientais a riscos diretos e indiretos à infância, desde epidemias até perda de aprendizado e aumento da vulnerabilidade social.
Arboviroses, chuvas e desmatamento
Segundo o médico, alterações no regime de chuvas — com episódios de precipitação mais intensa — ampliam os criadouros do mosquito transmissor de dengue, chikungunya e zika, aumentando a frequência e a intensidade de epidemias. Além disso, Ferras destacou o papel do desmatamento: a retirada de áreas florestais eleva o contato humano com vírus antes desconhecidos, sem imunidade na população, e amplia o risco de surgimento de novas doenças transmissíveis.
Segurança alimentar e queda no rendimento escolar
Ferras citou relatório da Unicef (2022) que mostra dependência dos pequenos agricultores para a alimentação da população brasileira — representando dois terços do consumo em geral e 80% do consumo das famílias mais pobres. Como esses produtores têm menor capacidade de se adaptar a eventos climáticos extremos, a redução na produção pode agravar a insegurança alimentar e, na prática, levar à fome entre crianças. O pediatra ainda relacionou as ondas de calor ao desempenho escolar: pesquisa do Banco Mundial identificou queda nas notas de alunos do 5º ao 9º ano em anos com até 37 dias de temperaturas acima de 25°C, sobretudo entre os estudantes mais pobres que frequentam escolas sem condições de mitigar o calor.
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Desastres naturais, deslocamento e aumento da vulnerabilidade
Em situações de enchentes, deslizamentos e outros desastres climáticos, famílias são frequentemente deslocadas para abrigos ou ocupam espaços coletivos — às vezes escolas — o que reduz a vigilância sobre as crianças e aumenta as oportunidades para potenciais agressores. Ferras ressaltou que, nesses eventos, os mais pobres, as crianças, idosos e pessoas com deficiência são os mais afetados, e que desastres climáticos têm se tornado mais frequentes, ampliando riscos sociais e sanitários.
O especialista concluiu lembrando a responsabilidade coletiva: professores, imprensa e cidadãos devem levantar e debater o tema para impulsionar mudanças de comportamento e políticas públicas que reduzam os danos às gerações atuais e futuras.