Ouça a coluna ‘Oficina de Palavras’ com Luiz Puntel
Nesta edição da oficina de palavras, nosso foco é Guimarães Rosa, um mestre da linguagem que, mesmo como contista, criava poesia em suas narrativas. Para ilustrar, analisaremos seu conto ‘Burrinho Pedrês’.
A Imponência dos Bois
O conto inicia no curral, descrevendo a imensa boiada – 460 rezes – prestes a seguir para o matadouro. Guimarães Rosa utiliza metáforas poderosas, comparando a variedade de chifres a uma ‘cordilheira de cacundas sinuosas’ e sua movimentação a uma ‘mastriação de chifres’. A descrição detalhada da imponência dos bois, seus ímpitos e a necessidade de chão sob suas patas, já prenuncia a força e a dramaticidade da narrativa.
A Musicalidade do Deslocamento
Ao iniciar a jornada, a musicalidade da inquietude dos bois é retratada por meio de uma impressionante sequência de substantivos que descrevem as características do gado: galhudos, galhôlos, estrelos, espaços, combucos… A repetição de sons (aliteração) cria um ritmo que imita o movimento da boiada, mostrando a maestria de Guimarães Rosa em usar a sonoridade das palavras para pintar a cena. A mudança de ritmo, do frenético inicial para um gingado mais lento, é igualmente notável, com a descrição das ancas balançando, das caudas batendo e dos mugidos que expressam a tristeza e a saudade dos campos.
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Metáforas e Ritmo
A narrativa utiliza metáforas ricas e eficazes, comparando a boiada a uma ‘centopeia’ que ganha o espaço da estrada. A mudança de ritmo na narrativa acompanha a mudança no ritmo da boiada, mostrando a sensibilidade de Guimarães Rosa em captar e transmitir a essência do movimento. A leitura atenta revela a importância de apreciar a riqueza de detalhes e o ritmo lento e cuidadoso com que a história se desenvolve, refletindo o próprio caminhar da boiada. A frase final de Guimarães Rosa, citada na oficina, ‘A vida é assim, esquenta, esfria, aperta, daí afrouxa, sossega e depois desiqueta, o que ela quer dar gente é coragem’, resume a força e a beleza da sua escrita, que nos convida a refletir sobre a vida e a arte.