Essas áreas correspondem a 54% do espaços preservados no país; pesquisa da USP avaliou as decisões tomadas pelos produtores
A legislação brasileira determina que propriedades rurais mantenham áreas destinadas à preservação de florestas, incluindo as Áreas de Preservação Permanente (APPs), localizadas em nascentes, margens de rios e topos de morro, onde a vegetação nativa deve ser protegida de qualquer ação humana. As reservas legais correspondem a um percentual da propriedade onde a vegetação pode ser explorada de forma sustentável. Juntas, essas áreas representam 54% da vegetação nativa ainda existente no Brasil, destacando a importância da participação dos proprietários rurais nas políticas de conservação ambiental.
Um estudo realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP avaliou as decisões de proprietários rurais no estado de São Paulo sobre a manutenção, aumento ou redução da vegetação nativa em suas propriedades. A pesquisa entrevistou 90 proprietários de 13 municípios do interior paulista, selecionados com base em variações na cobertura vegetal nos últimos 40 anos, utilizando dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
“Os proprietários rurais são atores-chave para a recuperação de áreas degradadas, especialmente em biomas como a Mata Atlântica, predominante no estado de São Paulo”, afirmou Amanda Fernandes, pesquisadora da USP.
Entre os motivos para a redução da vegetação nativa, os proprietários citaram incentivos governamentais da década de 1970 para expansão agrícola e o aumento da renda, além da ganância humana. Apesar disso, os entrevistados demonstraram consciência dos benefícios da conservação, como a preservação da água, que foi apontada como o principal benefício pelas propriedades que utilizam recursos hídricos para irrigação e consumo doméstico.
Por outro lado, apenas 9% dos entrevistados reconheceram o sequestro de carbono como um benefício da vegetação nativa, indicando a necessidade de melhorar a comunicação sobre esse aspecto ambiental.
“Os produtores paulistas entrevistados têm educação formal, acesso à assistência técnica, participam de cooperativas e conhecem a legislação, incluindo o CAR, mas ainda não estão totalmente dispostos a contribuir ativamente para a restauração de áreas degradadas”, explicou Amanda Fernandes.
Os proprietários demonstraram disposição para restaurar áreas degradadas, mas ressaltaram a importância de apoio financeiro e incentivos para que possam se engajar efetivamente na conservação e recuperação ambiental.
O estudo pretende contribuir para a formulação de políticas públicas mais eficazes, baseadas em um diálogo horizontal com os proprietários rurais, considerando suas necessidades e interesses locais. Segundo Amanda Fernandes, essa abordagem é fundamental para avançar na preservação, conservação e restauração das áreas naturais, beneficiando toda a sociedade.
Pontos-chave
- Propriedades rurais devem manter Áreas de Preservação Permanente e reservas legais, que juntas representam 54% da vegetação nativa no Brasil.
- Estudo da USP entrevistou 90 proprietários rurais em São Paulo para entender motivações relacionadas à conservação da vegetação nativa.
- Principais motivos para desmatamento incluem incentivos antigos para expansão agrícola e ganância, enquanto a conservação é valorizada principalmente pela proteção da água.
- Proprietários reconhecem benefícios ambientais, mas poucos associam a vegetação ao sequestro de carbono; há disposição para restaurar áreas, desde que haja apoio financeiro.
Entenda melhor
O Cadastro Ambiental Rural (CAR) é uma ferramenta importante para mapear e monitorar as áreas de vegetação nativa nas propriedades rurais, auxiliando na gestão ambiental e no cumprimento da legislação.



