Quem fala sobre o tema é o médico cardiologista Fernando Nobre na coluna ‘CBN Saúde’
Na coluna CBM Saúde, o cardiologista Dr. Fernando Nobre aborda o esgotamento entre profissionais da medicina e discute como essa exaustão compromete a capacidade de compaixão no atendimento ao paciente. O texto associa evidências científicas a reflexões sobre espiritualidade e suas implicações na prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.
Esgotamento profissional e declínio da compaixão
Dr. Nobre retoma pesquisas recentes que apontam para um desgaste crescente entre médicos: jornadas extensas, demandas conflituosas e sobrecarga de trabalho vêm esgotando recursos psicológicos e provocando exaustão emocional. Em artigo publicado no site Medscape em 21 de março, Paolo Espriano compilou estudos que mostram a redução da expressão compassiva como um componente específico desse esgotamento.
Um levantamento com cerca de mil profissionais indicou incapacidade de manifestar compaixão em situações clínicas, reflexo do impacto do estresse ocupacional sobre o desempenho médico. O resultado repercute diretamente na qualidade do cuidado e na relação entre clínicos e pacientes.
Leia também
Espiritualidade, compaixão e saúde cardiovascular
O cardiologista diferencia espiritualidade de religião: enquanto a religiosidade costuma estar ligada a práticas institucionais, a espiritualidade descreve uma busca pessoal por sentido diante da vida e da finitude, bem como a relação com o transcendente. Valores como altruísmo, humildade, gratidão e compaixão são destacados como fatores que contribuem tanto para a prevenção de doenças quanto para o tratamento quando estas se manifestam.
Segundo Dr. Nobre, há literatura consistente que associa práticas espirituais e atitudes compassivas a melhores desfechos em doenças cardiovasculares. Mais de uma centena de artigos examina os benefícios diretos das atitudes compassivas nas relações interpessoais, e outras centenas investigam o papel da espiritualidade na prevenção e na recuperação de enfermidades do coração.
Consequências para pacientes e implicações práticas
Além do impacto sobre os profissionais, o texto ressalta que pacientes com dificuldades de acesso a um atendimento digno frequentemente enfrentam falta de compreensão, tolerância e acolhimento. A redução da compaixão no ambiente clínico tende a agravar a experiência do paciente e a eficácia do cuidado.
Dr. Nobre sugere que preservar e fomentar a compaixão exige medidas organizacionais que reduzam o esgotamento profissional, além de reconhecer a dimensão espiritual como um componente adjuvante relevante na prática clínica.
Ao lembrar as palavras atribuídas a Buda — que a espiritualidade serve para aliviar o sofrimento — o cardiologista conclui com um apelo discreto: fortalecer a compaixão na medicina é uma necessidade para a saúde coletiva e para o cuidado do coração humano.