Mecânicos alertaram que aeronave não voasse para o Sul do país; funcionários revelaram que reparos eram feitos com peças usadas
Após a queda do avião da Voepas em Vinhedo, que vitimou 62 pessoas, novos detalhes sobre a tragédia vieram à tona. Relatórios internos da empresa, obtidos pelo Jornal Oglop, apontam seis falhas detectadas no sistema de desgelo da aeronave ATR-72 em julho de 2022. Mecânicos registraram a inoperância do sistema em diversas ocasiões, recomendando inclusive que o avião não voasse.
Falhas Repetidas e Ignoradas
Os documentos mostram que as falhas foram registradas em Congonhas (SP), Ribeirão Preto (SP) e Porto Alegre (RS). Em 13 de julho, um mecânico em Ribeirão Preto relatou restrições de gelo e recomendou evitar voos para o sul. Mesmo assim, o avião voou para Porto Alegre, onde novas falhas no sistema de desgelo e no limpador de parabrisa foram constatadas. Em 14 de julho, de volta a Congonhas, o problema no sistema anti-congelamento persistiu, com novas recomendações para que a aeronave não voasse para o sul. Quatro dias depois, em Congonhas, o sistema de desgelo e o gerador elétrico estavam inoperantes. Uma inspeção posterior em Ribeirão Preto detectou ainda problemas no sistema de situação horizontal.
Denúncias de Mecânicos e Práticas Questionáveis
A reportagem da CBN teve acesso a denúncias de um grupo de mecânicos da Voepas, que alegam que peças defeituosas eram trocadas por peças usadas de aviões desativados, localizados em um “cemitério de aeronaves” no Aeroporto Leite Lopes (Ribeirão Preto). A Voepas ainda não se pronunciou sobre essas denúncias. A ANAC também foi procurada, mas não respondeu sobre a fiscalização e a autorização para a troca de peças usadas. Um ex-funcionário, o comandante Rui Guardiola, relatou à TV Globo que, em 2019, a equipe de manutenção utilizou um palito de fósforo para solucionar um problema no botão do sistema anti-gelo.
Leia também
Investigações em Andamento e Condições de Trabalho
Além das falhas mecânicas, as condições de trabalho na Voepas também estão sob investigação. Ex-funcionários denunciam pressão excessiva, atrasos salariais, horas extras não pagas e jornadas extenuantes de até 14 horas. O Ministério Público do Trabalho (MPT) investiga a sobrecarga de serviço dos pilotos e comissários de bordo, analisando as jornadas de trabalho e a segurança da aeronave. De 1999 a 2024, a empresa recebeu 160 denúncias trabalhistas, sendo condenada em quatro ações por falta de pagamento de verbas e benefícios, totalizando mais de R$ 2,6 milhões. O Cenipa concluiu a primeira etapa da investigação do acidente, e um relatório preliminar deve ser divulgado em 30 dias. A Polícia Federal aguarda laudos para determinar as causas da tragédia. A caixa-preta registrou gritos como último som. O IML já identificou 60 das 62 vítimas.



