Segundo Fábio Nascimento, a sociedade precisa se organizar para ajudar a natureza se restabelecer após tanta destruição
O biólogo Fabio Nascimento, Biólogo fala da importância da restauração ambiental em meio a tantas queimadas, professor da Universidade de São Paulo (USP), participou de uma entrevista na CBN para discutir os impactos dos recentes incêndios florestais na região de Campinas e no estado de São Paulo, além das perspectivas para a recuperação ambiental e a importância da conscientização social e política para enfrentar o problema.
Segundo o especialista, a vegetação local, composta em grande parte por plantações de cana-de-açúcar, biomas e fauna, sofreu perdas significativas nos últimos dias devido aos incêndios. Com a chegada do período de chuvas, entre o final de setembro e início de outubro, há uma esperança de regeneração natural, mas ele ressalta que os incêndios foram severos e a recuperação espontânea da natureza não será suficiente, sendo necessária a intervenção humana.
Restauração ambiental e recuperação das áreas degradadas
Fabio Nascimento explica que a restauração ambiental é uma ciência dedicada à recuperação de áreas degradadas, envolvendo pesquisas científicas, ações do poder público e a participação da sociedade civil. Ele destaca que essa prática tem sido aplicada com sucesso em áreas de mineração e pode ser utilizada para recuperar as regiões afetadas pelos incêndios, desde que ainda não estejam em estágio crítico de destruição.
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O professor enfatiza a necessidade de um esforço conjunto, comparando a operação de combate aos incêndios a uma “operação de guerra”, que deve ser seguida por um trabalho intenso de fiscalização e recuperação ambiental para evitar novos danos.
Impactos econômicos e ambientais imediatos: Além dos prejuízos ambientais, os incêndios causam impactos econômicos diretos, como a perda de áreas produtivas. Parques naturais foram fechados para controle de acesso e prevenção de novos incêndios, o que afeta o turismo e o lazer da população. A gestão dessas áreas exige atenção redobrada por parte dos órgãos responsáveis.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou dados que indicam que São Paulo está próximo de bater um recorde no número anual de focos de queimadas desde 1998, com o maior registro anterior em 2010, quando foram contabilizados 7.291 focos. Apesar de medidas adotadas desde então, como a proibição das queimadas nas plantações de cana, os incêndios persistem, atrásra atingindo principalmente a vegetação nativa.
Qualidade do ar e mudanças no cenário ambiental
A professora Lúcia Campos, da USP, realizou estudos que mostram que, embora as queimadas nas plantações de cana tenham sido reduzidas, a qualidade do ar não melhorou, pois as queimadas passaram a ocorrer na vegetação nativa. Fabio Nascimento complementa que a situação é agravada pela alteração dos chamados “rios voadores”, canais de umidade originados na Amazônia, que estão sendo substituídos por canais de fumaça devido ao desmatamento e às queimadas na Amazônia e no Pantanal.
Esse fenômeno tem efeitos diretos na região de São Paulo, onde a fumaça das queimadas chegou recentemente, demonstrando a interligação dos sistemas ambientais e o alcance global dos impactos locais.
Desafios futuros e a importância da fiscalização e educação ambiental: O professor ressalta que a maioria dos incêndios é criminosa, o que demanda uma fiscalização rigorosa e contínua para prevenir novos focos. Ele destaca a necessidade de um pacto social para monitoramento e combate aos incêndios, considerando a perda dos serviços ambientais, como a qualidade do ar, a disponibilidade de água potável e a preservação dos habitats naturais.
Fabio Nascimento aponta que a sociedade deve se conscientizar da gravidade da situação e que o trabalho de prevenção e educação ambiental deve ser contínuo, não apenas durante a época de seca. Ele alerta para os riscos que as chuvas intensas podem trazer, como enchentes e entupimento de vias urbanas, agravados pelo acúmulo de lixo.
A educação ambiental nas escolas é destacada como ferramenta fundamental para a conscientização das novas gerações e, consequentemente, das famílias e comunidades. O professor lembra que temas ambientais devem ser incorporados nos currículos escolares, abrangendo desde o ensino fundamental até o superior, para promover uma mudança cultural ampla e duradoura.
Ao final da entrevista, Fabio Nascimento reforçou a necessidade de união da sociedade, poder público e pesquisadores para enfrentar os desafios ambientais atuais e futuros, ressaltando que a conscientização e a ação coletiva são essenciais para a preservação dos recursos naturais e a qualidade de vida da população.
Entenda melhor
- Restauração ambiental: Ciência que estuda e aplica técnicas para recuperar áreas degradadas, envolvendo pesquisa, políticas públicas e participação social.
- Rios voadores: Canais de umidade originados na Amazônia que influenciam o clima e a umidade em outras regiões da América do Sul.
- Focos de queimadas: Pontos onde incêndios florestais estão ativos, monitorados por órgãos como o INPE.
- Impactos dos incêndios: Perda de biodiversidade, degradação do solo, redução da qualidade do ar e da água, além de prejuízos econômicos.



