Um bate-papo com o zagueiro Matheus Silveira (Ellera Calcio-ITA) e Dr. Breno Carlos da Silva (UNESP/FCLAr)
O programa “CBN nas Quatro Linhas” abordou a temática da cidadania no futebol e a voz ativa dos jogadores, trazendo como convidado o zagueiro Matheus Vieira, de 23 anos, que atualmente atua na Itália pelo Eleracálicio. Matheus compartilhou sua trajetória no futebol, destacando passagens pelas categorias de base do São Paulo e do Cruzeiro, além das dificuldades enfrentadas, especialmente após uma lesão grave no joelho enquanto defendia o São Caetano.
Matheus iniciou sua carreira no Jabacuara, Cidadania no futebol e a voz ativa dos jogadores, passando pela Portuguesa até chegar ao São Paulo, onde permaneceu por quatro anos nas categorias de base. Posteriormente, transferiu-se para o Cruzeiro, onde teve a oportunidade de treinar com o time profissional e jogar a última Copa São Paulo de Futebol Júnior. Com a mudança na diretoria do clube, ele rescindiu o contrato e disputou a Copa FMF pelo Montoclube, marcando seu primeiro gol profissional. A seguir, assinou com o São Caetano para disputar o Campeonato Paulista da Série A2, mas sofreu uma lesão séria no joelho pouco antes do início da competição, o que comprometeu sua continuidade no clube.
Durante o período de recuperação, Matheus relatou a ausência de apoio do São Caetano, tanto financeiro quanto estrutural, o que o obrigou a buscar tratamento por conta própria. Ele destacou o auxílio fundamental do médico do clube e de profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar a cirurgia e a reabilitação. Após a recuperação, o jogador transferiu-se para a Itália, onde conseguiu retomar a carreira e atingir plena recuperação física.
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Desafios enfrentados por jogadores lesionados
Matheus afirmou não conhecer outros atletas que tenham passado pela mesma situação de vulnerabilidade que ele enfrentou no São Caetano, mas reconhece que casos semelhantes são frequentes no Brasil. Ele destacou a dificuldade dos jogadores em obter apoio dos clubes durante períodos de lesão e a importância da união da categoria para garantir direitos e suporte adequado.
Sobre a reação dos membros do clube à sua situação, Matheus explicou que, embora tenha recebido solidariedade individual de companheiros e da comissão técnica, não houve um movimento coletivo de defesa por parte da diretoria ou da presidência. Ele ressaltou que precisou buscar auxílio jurídico por conta própria para garantir seus direitos, com orientações recebidas de amigos e familiares com experiência no futebol.
Falta de organização coletiva e representação sindical: O jogador enfatizou a necessidade de união entre os atletas para enfrentar situações como a que viveu, mas apontou que a falta de poder judicial e de uma estrutura efetiva dificulta essa mobilização. Ele mencionou que, apesar de existirem leis trabalhistas que asseguram direitos aos jogadores, como a possibilidade de rescindir contrato em caso de atraso salarial, na prática esses direitos não são garantidos e não há movimentos coletivos para reivindicá-los.
Para ampliar a discussão, o programa contou com a participação do doutor em ciências sociais Breno Carlos da Silva, membro do Laboratório de Política e Governo da Unesp, que ressaltou a precariedade da educação para a cidadania no futebol brasileiro. Segundo Breno, a politização dos jogadores é limitada pela fragmentação social e pela despolitização do esporte, refletindo a conjuntura mais ampla da sociedade brasileira.
Contexto sociopolítico e estrutura do futebol brasileiro
Breno destacou que o futebol brasileiro é controlado por uma estrutura oligárquica, com forte clientelismo e práticas corruptas entre dirigentes e cartolas, o que dificulta a participação democrática dos jogadores e torcedores nas decisões do esporte. Ele afirmou que essa concentração de poder impede a organização coletiva dos atletas e a contestação das condições de trabalho, como o calendário exaustivo e a falta de suporte aos profissionais.
O pesquisador também ressaltou que a maioria dos jogadores vem de camadas populares e enfrenta dificuldades relacionadas à escolarização e à falta de apoio durante a carreira, o que contribui para a desunião da categoria. Ele mencionou o movimento Bonsensa Futebol Clube, que surgiu em 2013 com o objetivo de mobilizar os jogadores, mas que foi desarticulado após a saída de líderes importantes, como Paulo André, que foi transferido para a China.
Futebol, cidadania e função social: Breno afirmou que o futebol exerce uma função social ampla, sendo um espaço que reflete as estruturas e dilemas da sociedade brasileira, incluindo questões raciais, de gênero e de inclusão social. Ele destacou o aumento dos casos de racismo, homofobia e transfobia nos estádios e a necessidade de políticas efetivas para combater essas práticas.
Além disso, o pesquisador enfatizou o potencial do futebol para mobilizar e engajar diferentes segmentos da população, promovendo a inclusão e a participação democrática. No entanto, alertou para os riscos da mercantilização do esporte, como a privatização dos clubes via Sociedade Anônima do Futebol (SAF), que pode afastar as comunidades tradicionais e os torcedores da gestão dos times.
Por fim, Breno apontou que a democratização do futebol passa pela politização dos atores envolvidos, incluindo jogadores e torcedores, e pela criação de espaços de participação efetiva nas decisões do esporte. Ele ressaltou que o futebol é uma metonímia da sociedade brasileira e que os problemas enfrentados no esporte refletem desafios maiores da cidadania no país.
Entenda melhor
- Matheus Vieira enfrentou falta de apoio do São Caetano após lesão grave, precisando buscar auxílio jurídico por conta própria.
- Jogadores brasileiros enfrentam dificuldades para garantir direitos trabalhistas e apoio durante lesões.
- O futebol brasileiro é controlado por estruturas oligárquicas que dificultam a participação democrática dos atletas.
- Movimentos coletivos como o Bonsensa Futebol Clube tentaram mobilizar jogadores, mas enfrentaram resistência e desarticulação.
- A função social do futebol inclui o combate ao racismo, homofobia e a promoção da inclusão social, mas sofre com a mercantilização e privatização dos clubes.