O número de ciclos de criopreservação de óvulos no Brasil dobrou entre 2020 e 2023, de acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O procedimento, conhecido como congelamento de óvulos, tem sido cada vez mais procurado por mulheres que desejam adiar a maternidade.
Segundo a ginecologista e obstetra Taciana Fontes Rolindo, especialista em reprodução assistida, a mudança no comportamento está relacionada à priorização da carreira profissional e a transformações nos relacionamentos, que muitas vezes não coincidem com o período de maior fertilidade biológica.
Com isso, o congelamento de óvulos passou a ser uma alternativa para preservar a fertilidade e oferecer mais segurança às mulheres que pretendem engravidar em outro momento da vida.
Idade ideal
Biologicamente, o período de maior fertilidade feminina ocorre por volta dos 20 anos. No entanto, essa fase nem sempre corresponde à realidade social atual, em que muitas mulheres estão iniciando a vida profissional.
De acordo com a especialista, o congelamento de óvulos é indicado preferencialmente antes dos 35 anos, quando os resultados são mais favoráveis. Após essa idade, o procedimento ainda é possível, mas com redução na qualidade dos óvulos e nas chances de sucesso.
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A médica explica que não existe um exame capaz de avaliar a qualidade do óvulo de forma isolada. O principal fator considerado é a idade da mulher, enquanto os exames disponíveis avaliam apenas a quantidade de óvulos, conhecida como reserva ovariana.
Como funciona
O procedimento envolve o uso de medicações para estimular a ovulação, permitindo a produção de vários óvulos em um único ciclo. Durante esse período, os folículos são acompanhados até o amadurecimento.
A coleta é feita por meio de um procedimento com anestesia leve, no qual os óvulos são retirados dos ovários e, posteriormente, congelados em laboratório. Os protocolos atuais, segundo a médica, são considerados mais simples e menos invasivos do que no passado.
Uma vez congelados, os óvulos podem permanecer armazenados por muitos anos. Há registros de nascidos vivos a partir de óvulos congelados por até 28 anos, embora no Brasil a legislação permita a reprodução assistida em mulheres de até 50 anos.
Legislação e doação
A legislação brasileira permite a doação de gametas, como óvulos e espermatozoides, de forma anônima ou para parentes de até quarto grau, desde que haja autorização da doadora.
Caso os óvulos não sejam utilizados pela própria mulher, eles podem ser doados para outras pessoas ou descartados, conforme decisão da titular.
A médica também esclareceu a diferença entre infertilidade e esterilidade. A infertilidade pode ser transitória ou reversível e, em muitos casos, tratável com técnicas de reprodução assistida. Já a esterilidade ocorre quando não há possibilidade biológica de gerar filhos, como em casos de ausência de útero, ovários ou produção de gametas.
Preservação da fertilidade
Além do aspecto social, o congelamento de óvulos também é indicado por razões médicas. Mulheres diagnosticadas com doenças como câncer ou endometriose, que podem comprometer a fertilidade após cirurgias ou tratamentos como quimioterapia, podem recorrer ao procedimento como forma de preservação reprodutiva.
Em relação aos custos, há um investimento inicial maior no ciclo de coleta, que inclui acompanhamento médico, medicações e procedimentos laboratoriais. Após isso, é cobrada uma taxa anual para a manutenção dos óvulos congelados.



