Quem contextualiza a independência brasileira e como era o país naquela época é o historiador Felipe Narita
Neste 7 de setembro, celebramos o bicentenário da Independência do Brasil, um marco histórico repleto de significados e interpretações. Para nos ajudar a compreender melhor esse momento crucial, conversamos com o historiador Felipe Narita.
A Construção do Estado Brasileiro
Segundo Narita, a Independência de 1822 possui dois aspectos fundamentais. O primeiro diz respeito à formação do Estado brasileiro independente de Portugal. Este processo, ocorrido no início do século XIX, representou o nascimento da modernidade brasileira, com a adoção de novos parâmetros políticos, como a ideia de uma constituição, cidadania, soberania popular e participação política – conceitos ausentes no regime absolutista português. A independência brasileira se insere em um contexto mais amplo de revoluções que marcaram a transição para Estados constitucionais, como a Revolução Americana e a Revolução Francesa.
O Mito da Fundação Nacional
O segundo aspecto destacado por Narita é a força simbólica do 7 de setembro como um mito fundador da nação brasileira. A data, instituída posteriormente à independência propriamente dita (apenas na década de 1830), tornou-se objeto de disputa política e um instrumento para legitimar determinada identidade nacional no presente. A construção dessa narrativa mítica envolve a manipulação da memória histórica, selecionando e enfatizando certos eventos e personagens.
Leia também
Um Processo Mais Complexo que o “Grito”
O historiador aponta que o “Grito do Ipiranga”, em 1822, não representou o fim do processo de independência. Na verdade, a separação de Portugal foi seguida por guerras para a expulsão das tropas portuguesas em várias regiões do Brasil. A consolidação da independência envolveu também o reconhecimento internacional e a indenização paga a Portugal. Narita destaca que a historiografia brasileira frequentemente simplifica esse processo, omitindo as lutas e conflitos que o marcaram.
A visão heroica e romantizada da independência, centrada na figura de Dom Pedro I, também é questionada. Narita argumenta que essa narrativa minimiza a importância de outros atores políticos e o caráter complexo do processo. A imagem clássica do “Grito do Ipiranga”, frequentemente retratada em pinturas, é considerada uma representação idealizada e pouco fiel à realidade histórica.
A entrevista finaliza com uma discussão sobre o uso político da memória histórica, exemplificado pela polarização política atual no Brasil. Narita ressalta que o passado é constantemente instrumentalizado para fins políticos, e o 7 de setembro não é exceção. As comemorações do bicentenário, assim como as celebrações passadas, refletem as disputas ideológicas e os interesses políticos do presente.



