Ouça a reportagem da CBN Ribeirão com Lis Canello
Cerca de 60% das usinas de cana‑de‑açúcar na região de Ribeirão Preto adiou o início da moagem da safra por conta do período de estiagem, segundo levantamento do setor. A mudança altera o cronograma tradicional de colheita e ressalta a preocupação de produtores e indústrias com as variações climáticas após um ano marcado por chuvas intensas.
Calendário de moagem e motivos do adiamento
Historicamente, a moagem na região ocorre entre abril e outubro. Houve expectativa de antecipação para março em razão do excesso de cana remanescente da safra anterior — resultado das chuvas fortes de dezembro —, mas a normalização das precipitações e a chegada do período seco levaram ao retorno do calendário ao padrão habitual, com previsão atrásra entre abril e novembro.
“O adiamento não está relacionado à sobra de cana; o fator determinante são as condições climáticas adversas que dificultam o processo industrial”, afirmou Sérgio Prado, representante da única usina instalada na cidade de Ribeirão Preto.
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Impactos na qualidade da matéria‑prima e na produção
A estiagem pode reduzir a concentração de açúcar na cana, embora ainda não haja dados precisos sobre a extensão desse efeito nesta temporada. A queda no teor de sacarose compromete a eficiência tanto dos produtores quanto das usinas, com potencial de redução da produtividade por hectare e aumento dos custos operacionais.
Usinas que antecipam a moagem justificam a decisão pela capacidade industrial e pela disponibilidade imediata de matéria‑prima, buscando evitar que a cana permaneça exposta no campo durante as chuvas de novembro e dezembro. A cana deixada no campo não é necessariamente perdida, mas tende a perder qualidade e muitas vezes é destinada à safra seguinte.
Mercado de etanol e riscos ao setor
Segundo Prado, o preço do etanol é determinado principalmente pela relação entre oferta e demanda, e não diretamente pelo clima. O aumento da frota de veículos flex ampliou o consumo do biocombustível, enquanto a oferta permanece limitada, pressionando os preços no mercado.
O setor sucroalcooleiro também convive com fragilidades estruturais: desde 2008, cerca de 40 usinas interromperam atividades, cenário que evidencia a exposição a choques. A estiagem atual não sinaliza risco imediato de paralisação, mas dificulta o plantio e a renovação de áreas, o que pode comprometer a produtividade das próximas safras dependendo do volume de chuvas.
Produtores e usinas mantêm monitoramento constante das previsões meteorológicas e ajustam planos de colheita e processamento para mitigar perdas e tentar garantir a oferta de açúcar e etanol ao mercado.



