Matriculado no curso de enfermagem em Ribeirão Preto, Igor Hagerdon Reis, realizou uma vaquinha para custear a viagem para SP
Igor Reis, estudante autodeclarado pardo natural de Guariba, conquistou uma vaga no curso de Enfermagem da USP e já vinha frequentando as aulas quando foi surpreendido com a convocação para uma oitiva presencial junto à banca de heteroidentificação da universidade.
Convocação e dificuldades financeiras
Segundo o jovem, a matrícula foi feita de forma virtual no dia 5 de março e o sistema indicou que ela havia sido deferida. Cinco dias depois, porém, Igor recebeu um e-mail da USP informando que a análise das fotografias que havia enviado havia sido considerada inconclusiva e que ele deveria comparecer a uma oitiva presencial para confirmar a autodeclaração.
Sem recursos para arcar com a viagem a São Paulo, o estudante, que mora em Jaboticabal, recorreu ao apoio da família e a uma vaquinha para viabilizar o deslocamento. Ele relatou insegurança e temor de perder a vaga, situação que se agravou pelo fato de já estar frequentando o curso enquanto aguardava a resolução do caso.
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Como funciona a verificação da USP
De acordo com a universidade, a análise inicial é feita a partir de fotografias fornecidas pelos candidatos. Essas imagens são avaliadas por duas bancas independentes, cada uma composta por cinco integrantes, que se baseiam exclusivamente em fatores fenotípicos. Se a foto não for aprovada pela primeira banca, o material segue para a segunda avaliação, sem que os avaliadores saibam se a imagem está sendo analisada pela primeira ou segunda vez.
Quando nenhuma das bancas aprova a autodeclaração por maioria simples, o candidato é convocado automaticamente para uma oitiva presencial. A USP informa ainda que, no caso de quem ingressa pela Fuvest, a oitiva exige presença física — o que implica custos que nem todos os aprovados conseguem arcar — enquanto outras formas de ingresso podem prever procedimentos diferentes. A matrícula só é confirmada definitivamente após a aprovação pela banca de heteroidentificação, e é possível apresentar recurso contra as decisões.
Casos semelhantes
O caso de Igor não é isolado: recentemente, Isabelia Maral Batista, de Barrinha, teve duas vagas na USP em Ribeirão Preto revogadas após a banca rejeitar sua autodeclaração como parda. Esses episódios têm gerado debate sobre os critérios adotados e sobre o impacto financeiro e emocional sobre candidatos que dependem do processo de verificação étnico-racial.
O episódio levanta questões sobre transparência e acesso: além das discussões jurídicas e administrativas, muitos estudantes enfrentam dificuldades práticas para cumprir exigências que podem determinar a manutenção ou a perda da vaga conquistada.



