Um estudo inédito realizado com fósseis do Museu de Paleontologia de Monte Alto, no interior de São Paulo, revelou que os crânios de crocodilos que viveram na época dos dinossauros eram significativamente mais resistentes do que os dos crocodilos modernos. A pesquisa indica que as estruturas ósseas dos ancestrais suportavam até cinco vezes mais esforço durante a mordida.
O trabalho foi desenvolvido em parceria com pesquisadores da Universidade de Bristol e da Universidade de Hull, na Inglaterra, e utilizou técnicas avançadas de engenharia aplicadas à paleontologia, ampliando o entendimento sobre a evolução dessas espécies.
Tecnologia aplicada
Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram a análise de elementos finitos, método amplamente empregado na engenharia civil para testar a resistência de materiais usados em pontes e edifícios. Na paleontologia, a técnica permite simular digitalmente forças aplicadas aos fósseis.
Segundo a coordenadora e paleontóloga do museu, Sandra Tavares, os crânios fósseis e modernos foram escaneados por tomografia computadorizada e reconstruídos em modelos digitais. A partir disso, foi possível simular a musculatura e aplicar forças semelhantes às usadas durante a mordida de um animal em ação de predação.
Diferenças anatômicas
Os resultados mostraram que a forma do crânio é um fator determinante para a resistência. Crocodilos modernos possuem crânios achatados, com narinas e olhos posicionados na parte superior, uma adaptação típica de animais semiaquáticos.
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Já os crocodilos da era dos dinossauros apresentavam narinas mais frontais e olhos posicionados lateralmente, o que indica uma adaptação maior ao ambiente terrestre. Essa configuração estrutural contribuiu para uma maior resistência óssea durante a alimentação.
Espécies analisadas
O estudo analisou fósseis de diferentes espécies encontradas na região de Monte Alto. Entre elas estão o Baurusuchus salgadoensis, considerado um predador de topo da cadeia alimentar, com forte capacidade de mordida, e o Montealtosuchus Arte/Luciano Vidal, de porte médio.
Também foi estudado o Caipirasuchus paulistanus, espécie que, segundo as pesquisas, apresentava hábitos onívoros. Os crânios analisados variavam entre 20 e 40 centímetros, cada um com características distintas que influenciaram os resultados da simulação.
Ciência e comprovação
Sandra Tavares destaca que o uso dessas tecnologias ajuda a substituir especulações por dados concretos. Diferentemente dos animais atuais, cujo comportamento pode ser observado diretamente, o estudo de fósseis exige métodos indiretos para interpretar hábitos e capacidades.
A combinação de tomografias, modelos digitais e simulações mecânicas permite comprovar hipóteses antigas sobre alimentação, comportamento e adaptação das espécies pré-históricas com maior precisão científica.

Reconhecimento internacional
A paleontóloga explica que a parceria internacional surgiu a partir de seu doutorado, quando teve contato direto com a equipe britânica especializada na técnica. A partir dessa colaboração, surgiu a ideia de comparar diferentes espécies brasileiras e analisar a força de mordida entre elas.
Além de contribuir para a literatura científica, o estudo fortalece a importância dos fósseis brasileiros no cenário internacional e amplia o conhecimento sobre a diversidade de crocodilomorfos que habitaram o país milhões de anos atrás.



