Mário Silva Júnior, coordenador do ‘Dissimulados’, que reúne casos reais de assédio, fala do cenário no país
Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou um aumento significativo nos casos de assédio moral e assédio sexual no ambiente de trabalho, Estudo indica que as denúncias de assédio sexual no ambiente de trabalho cresceu 44,8%, conforme dados da Justiça do Trabalho. Nesse período, quase 420 mil ações relacionadas a esses tipos de assédio foram julgadas. O volume de processos envolvendo assédio sexual cresceu 44,8%, segundo informações do judiciário trabalhista.
Para compreender melhor esse cenário, o especialista em investigação corporativa e risco comportamental, Mário Silva Junior, explicou que o aumento dos casos está diretamente ligado ao crescimento das denúncias, que refletem tanto uma maior ocorrência quanto uma maior disposição das vítimas em relatar os abusos. Silva destaca que muitas empresas brasileiras têm implementado programas de ética e compliance, que incluem canais de denúncia para que funcionários possam reportar situações de assédio moral, sexual, preconceito, discriminação e até fraudes.
Dinâmica do assédio no ambiente corporativo
O especialista detalha que o assédio, para ser caracterizado, geralmente envolve o exercício do poder, ou seja, uma relação hierárquica onde um superior comete o abuso contra um subordinado. No entanto, ele ressalta que também existe o assédio horizontal, quando colegas de mesma hierarquia criam situações para desestabilizar ou prejudicar a carreira de um profissional, como atrasar propositalmente a entrega de uma tarefa para causar problemas ao outro.
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Além disso, Silva aponta que o assédio moral pode ocorrer de forma invertida, ou seja, do subordinado para o superior, por meio de denúncias falsas ou outras estratégias para prejudicar um gestor que atua corretamente. No caso do assédio sexual, a relação de poder não é necessariamente requisito, mas deve haver uma relação profissional para que seja configurado como tal. Situações fora do ambiente de trabalho, como importunação sexual em transporte público, são classificadas de forma distinta pela legislação.
Perfil das vítimas e barreiras para denúncias: As mulheres são as principais vítimas de assédio sexual no trabalho, mas homens também podem ser afetados, embora em menor proporção. Silva explica que o machismo e o preconceito presentes na sociedade brasileira dificultam que homens denunciem esses casos, especialmente quando o assédio é praticado por outro homem. O receio de comprometer a reputação e a identidade de gênero faz com que muitos prefiram resolver a situação por conta própria, sem buscar ajuda formal nas empresas.
Procedimentos para denúncia e prevenção: O especialista orienta que, diante de situações de assédio, o trabalhador deve procurar a área de recursos humanos ou utilizar os canais de denúncia disponíveis na empresa. Muitas organizações oferecem mecanismos anônimos para que as vítimas possam relatar os abusos sem se expor, o que pode facilitar a comunicação. Silva alerta, porém, que a efetividade dessas denúncias depende da seriedade com que a empresa trata esses casos. Quando os canais existem apenas formalmente, sem ações concretas, o medo de retaliação aumenta, podendo levar a problemas psicológicos e até à saída do funcionário.
Outra alternativa é buscar apoio em superiores hierárquicos confiáveis, que não estejam envolvidos nas situações de assédio, para que possam intervir de forma adequada e sem represálias. O especialista reforça que é fundamental que a empresa tenha políticas claras de ética, compliance e proteção ao denunciante para garantir um ambiente de trabalho saudável.
Diferença entre brincadeira e assédio
Ao abordar o limite entre brincadeira e assédio, Mário Silva Junior enfatiza que o que pode parecer uma brincadeira para quem a faz pode ser uma situação de humilhação e exposição para quem a sofre. Para caracterizar o assédio, é necessário que haja exposição repetida e prolongada, com ações que desqualifiquem a pessoa, a isolem dentro da organização e ataquem sua dignidade, como insultos, ameaças ou exclusão de atividades profissionais.
O especialista destaca que a recorrência é um fator essencial para a configuração do assédio, e que situações isoladas dificilmente são consideradas como tal. Ele ressalta que o assédio provoca um impacto profundo na saúde mental e na autoestima das vítimas, que podem se sentir incapazes e desmotivadas, o que compromete seu desempenho e bem-estar no trabalho.
Entenda melhor
O aumento das denúncias de assédio no trabalho no Brasil reflete tanto uma maior conscientização das vítimas quanto a implementação de mecanismos internos nas empresas para combater essas práticas. A existência de canais de denúncia eficazes e o compromisso das organizações em agir contra o assédio são fundamentais para a proteção dos trabalhadores e a promoção de ambientes profissionais mais seguros e respeitosos.



