Hospital onde o corpo foi levado, perto de Divinópolis, não fazia captação de órgãos e corpo precisou ser levado ao HC Ribeirão
A dor da perda de um filho, intensificada pela burocracia e falta de estrutura, marcou a experiência de Dora de Brito Ferreira, enfermeira de Ribeirão Preto. O desejo do seu filho, um jovem de 24 anos falecido em um acidente próximo a Divinópolis, de ser doador de órgãos, esbarrou em obstáculos inesperados, transformando o luto em uma luta contra o tempo e a ineficiência do sistema.
A Burocracia em Meio ao Luto
A saga da família começou quando o Hospital Santa Mônica, para onde o jovem foi levado após o acidente, informou que não realizava a captação de órgãos. “É inaceitável que a vontade dele de doar os órgãos tenha enfrentado tanta dificuldade”, desabafou Dora. A família se deparou com protocolos divergentes e a necessidade de arcar com os custos do transporte do corpo para Ribeirão Preto, um valor de R$ 10 mil.
Um Legado de Vida em Meio à Dor
Apesar dos desafios, a perseverança de Dora permitiu que sete órgãos do filho fossem retirados e encaminhados para o Incor e Hospital do Coração de São Paulo: coração, pulmão, pâncreas, fígado, rins, córneas e ossos. A notícia de que o coração doado salvou a vida de uma mulher que completava 30 anos trouxe algum consolo. “Meu filho está vivo ainda em cada família, em cada pessoa. Sinto que era isso que ele queria”, disse Dora, emocionada.
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A Urgência da Doação de Órgãos no Brasil
A história de Dora lança luz sobre a crítica situação da doação de órgãos no Brasil. Atualmente, 50 mil pessoas aguardam na fila de transplantes, e estima-se que metade delas não resistirá à espera. João Natalino Arantes, de 57 anos, e a balconista Elisangela Reis são apenas dois exemplos de pacientes que depositam suas esperanças em um transplante para ter uma nova chance de vida. Em São Paulo, a fila de espera é alarmante: 153 pacientes aguardam por um coração, 2.765 por córneas, 1.056 por fígados, 49 por pâncreas e 10.958 por rins.
Diálogo Familiar: A Chave para a Doação
Margarida Momente Quiarete, enfermeira da Organização de Procura de Órgãos do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, ressalta a importância do diálogo familiar sobre a doação de órgãos. “O mais importante é ter essa conversa em casa para decidir se quer ou não ser doador. Quando há essa conversa prévia, a decisão em doar é muito mais fácil”, explica. Ela também destaca a necessidade de esclarecer o conceito de morte cerebral, muitas vezes mal compreendido. “Precisamos entender que morte é cérebro morto. O coração bate por algumas horas, mas ele para. É nesse momento que a doação pode acontecer”, conclui.
A história de Dora e a realidade da fila de transplantes no Brasil nos lembram da importância de discutir e expressar o desejo de ser doador, um gesto que pode transformar vidas e perpetuar um legado de esperança.



