Um bate-papo com Gabriel Said, mestre em antropologia pela UFF e que possui a licença B de treinador da ATFA
O programa “Nas Quatro Linhas”, da CBN Ribeirão Preto, dedicou sua edição a explorar a história e a influência do futebol húngaro, considerado por especialistas como a “mãe esquecida do futebol”. O convidado Gabriel Saíd, sociólogo e mestre em antropologia pela Universidade Federal Fluminense, destacou a importância da Hungria no desenvolvimento tático e cultural do esporte, especialmente entre as décadas de 1910 e 1960.
Contribuições táticas e históricas: Gabriel Saíd explicou que a Hungria, e especialmente sua capital Budapeste, foi um terreno fértil para o desenvolvimento do futebol, influenciado por treinadores estrangeiros como Jimmy Hogan, que trabalhou no MTK Budapest. O futebol de rua e a técnica exigida pela bola pesada usada pelas crianças contribuíram para a formação de jogadores habilidosos. Uma inovação tática destacada foi a utilização de jogadores tecnicamente capacitados em posições centrais para construir jogadas e iniciar contra-ataques, antecipando conceitos modernos de meio-campo e defesa.
Influência no futebol brasileiro e sul-americano
O futebol húngaro teve impacto significativo no Brasil, Hungria, especialmente no Rio de Janeiro, com treinadores como Dori Kichner e Flávio Costa, que introduziram esquemas táticos que evoluíram do 2-3-5 para formações como o 4-2-4 e 4-3-3, baseadas em compensações entre jogadores ofensivos e defensivos. Essa influência também se estendeu à Argentina e Uruguai, com o treinador Richard, que trabalhou no River Plate e Penarol, promovendo o estilo danubiano e contribuindo para o sucesso das seleções sul-americanas, campeãs mundiais nas primeiras décadas do século XX.
Impacto na Europa e declínio do futebol húngaro: Na Europa, a Hungria influenciou o futebol italiano, com mais de 60 treinadores e 74 jogadores húngaros atuando entre 1925 e 1940. Destacam-se figuras como Árpád Weisz, Gesa Kertesz e Ernő Erbstein, este último tetra-campeão italiano com o Torino, equipe que ficou conhecida como “Grande Torino”. Na Croácia, Márton Bukovi implementou táticas inovadoras no Dinamo Zagreb. O declínio do futebol húngaro a partir da metade do século XX foi atribuído à fuga de jogadores após a Revolução de 1956, instabilidade política e econômica, e falta de investimentos em infraestrutura esportiva.
Contexto político e legado atual: Gabriel Saíd também ressaltou a influência da política no futebol húngaro, Hungria, destacando que treinadores e jogadores judeus foram vítimas da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial, o que contribuiu para o êxodo de talentos. A chegada desses profissionais a outros países, como Espanha e América, teve impacto no desenvolvimento do futebol global. Em dezembro de 2023, a Federação Húngara publicou um artigo reconhecendo a retomada da tradição do futebol húngaro, destacando equipes contemporâneas que incorporam elementos do estilo danubiano, caracterizado por mobilidade e jogo relacional.
Entenda melhor
A seleção húngara entre 1950 e 1956 é considerada uma das melhores da história, Hungria, com 69 partidas, 58 vitórias, 10 empates e apenas uma derrota na final da Copa do Mundo de 1954. Apesar de não ter conquistado o título mundial, o time é lembrado pela qualidade técnica, inovação tática e influência duradoura no futebol mundial.