Jurista Regina Vieira fala sobre como o machismo estrutural e outras implicações sociais perpetuam esse padrão
Segundo dados do IBGE, mulheres dedicam 9,6 horas a mais que homens a trabalhos domésticos. Para entender esse cenário, conversamos com a jurista Regina Estela Correia Vieira, doutora pela USP e professora de direito da Unifesp.
A Divisão Sexual do Trabalho: Uma Realidade Histórica
A desigualdade na divisão das tarefas domésticas não é um fenômeno recente. Historicamente, existe uma divisão sexual do trabalho, naturalizando o papel da mulher no âmbito doméstico e do homem no espaço público. Apesar das conquistas femininas no mercado de trabalho desde meados do século XX, a ideia de que o cuidado é responsabilidade compartilhada ainda não se consolidou totalmente. Mulheres continuam sobrecarregadas, responsáveis tanto pelo trabalho externo quanto pelo doméstico, muitas vezes assumindo as tarefas sem questionamento.
A Reprodução de Papéis de Gênero e a Importância da Educação
Essa divisão de tarefas é perpetuada desde a infância, com a educação diferenciada de meninos e meninas. Meninas são incentivadas a brincadeiras associadas aos cuidados domésticos, enquanto os meninos são direcionados para atividades mais esportivas ou competitivas. Esse condicionamento social dificulta a quebra desse ciclo, mesmo que muitas mulheres não o desejem conscientemente. A desvalorização do trabalho de cuidado contribui para essa naturalização, criando a falsa ideia de que o cuidado é uma aptidão inata das mulheres. A conscientização e a mudança de mentalidade são essenciais, tanto em casa como na sociedade como um todo.
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Mudança Individual e Ações Coletivas: Um Desafio Compartilhado
A mudança requer esforço individual e coletivo. Pais e mães devem estar atentos à mensagem que transmitem aos filhos, incentivando a divisão de tarefas e a desconstrução de papéis de gênero. Entretanto, a responsabilidade não se limita ao âmbito familiar. O Estado e a sociedade devem atuar na promoção de políticas públicas que facilitem a vida das mulheres, como creches de tempo integral e restaurantes populares, que aliviem a sobrecarga do trabalho doméstico. Exemplos como o sucesso da jogadora Marta no futebol, em um país que historicamente restringiu a participação feminina no esporte, demonstram que os papéis de gênero são construções sociais, e não determinações biológicas. A construção de uma sociedade mais equitativa demanda a participação de todos, promovendo mudanças individuais e coletivas para uma distribuição justa das responsabilidades domésticas.



