Acesso a exames preventivos é um dos fatores que influenciam, segundo estudo; pesquisador e professor, Adeylson Ribeiro, explica
Um estudo conduzido por pesquisadores vinculados ao Hospital de Amor, em Barretos, e à Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) aponta que a incidência do câncer de tireoide em São Paulo varia conforme o nível socioeconômico e a acessibilidade a exames diagnósticos. A pesquisa analisou 18 municípios da região de Barretos e comparou os achados com os dados do município de São Paulo.
Como foi feita a comparação entre interior e capital
O trabalho tinha inicialmente foco regional nos 18 municípios da microrregião de Barretos, mas, a convite do pesquisador Dr. Fred Bray — responsável por estimativas de câncer em âmbito mundial — os autores incluíram também a cidade de São Paulo como zona de comparação. A intenção foi confrontar duas realidades distintas do mesmo estado: uma representativa do interior e outra de grande metrópole.
Diferenças na incidência e papel do diagnóstico incidental
Os resultados mostram que, enquanto na região de Barretos a incidência de câncer de tireoide é semelhante entre áreas mais ricas e mais pobres (5,5 por 100 mil habitantes na área mais favorecida contra 4,8 na menos favorecida), na cidade de São Paulo a discrepância é muito maior. Na capital, a incidência foi de 31,6 por 100 mil habitantes nas áreas mais ricas e 8,1 por 100 mil nas mais pobres — cerca de quatro vezes maior na faixa de maior poder aquisitivo.
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Os pesquisadores destacam que o câncer de tireoide tem letalidade baixa e que seu aumento observado nas estatísticas está fortemente associado ao maior acesso a exames complementares (ultrassonografias, tomografias, ressonâncias) que muitas vezes detectam nódulos de forma incidental. Esses achados, identificados em exames realizados por outros motivos, podem levar a tratamentos e a um impacto psicológico desproporcional ao risco real da lesão.
Apesar da variação na detecção, a diferença de mortalidade entre regiões não se mostrou significativa, reforçando a hipótese de sobre-diagnóstico em locais com maior oferta de exames.
Perfil etário e gênero e implicações para políticas públicas
O padrão etário observado para o câncer de tireoide é relativamente precoce em relação a outros tumores: a incidência começa a crescer a partir dos 20 anos, mantendo-se elevada até por volta dos 60 anos, quando então tende a cair. A doença é mais frequente entre mulheres. Esses achados sugerem que programas de vigilância e campanhas educativas devem considerar o risco de sobre-diagnóstico e o impacto do rastreamento indiscriminado.
Segundo os autores, divulgar os resultados para o público e gestores locais é fundamental para orientar políticas de prevenção e controle do câncer, equilibrando a detecção precoce útil com a redução de exames desnecessários e intervenções que não alteram o prognóstico.
A equipe reforça a importância de levar informação científica para a população local e de usar esses dados como base para decisões que considerem tanto a saúde individual quanto os recursos dos sistemas de saúde.



