Paulo Augusto e Giuliano Tamura conversam com Fabiano Rodrigues de Melo, primatólogo sobre esses pequenos macacos
O Brasil abriga diversas espécies de saguis, Já ouviu falar sobre os raros e ameaçados saguis-da-serra?, entre elas duas que se destacam pela raridade e pelo grau de ameaça: o saguí-da-serra (Calitrix flaviceps) e o saguí-da-serra-escuro (Calitrix aurita). Essas espécies são primatas de pequeno porte, conhecidos popularmente também como micos, que habitam a Mata Atlântica brasileira, especialmente em regiões serranas do Sudeste do país.
Características e distribuição das espécies
O saguí-da-serra possui pelagem clara, com pelos esbranquiçados amarelados que cobrem grande parte do corpo, apresentando tonalidades que variam do amarelo claro ao cinza. Já o saguí-da-serra-escuro tem pelagem predominantemente preta, com tufos de pelos compridos nas orelhas que são amareladinhos ou esbranquiçados, característica comum a ambas as espécies.
Ambas as espécies pesam entre 400 e 450 gramas e são encontradas principalmente em áreas serranas. O saguí-da-serra tem uma distribuição geográfica muito restrita, ocorrendo apenas na região serrana do Espírito Santo e no leste de Minas Gerais, no Vale do Rio Doce. Essa área é considerada pequena para um primata no Brasil, um país de dimensões continentais.
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Por sua vez, o saguí-da-serra-escuro apresenta uma distribuição mais ampla, abrangendo o Vale do Rio Doce, a zona da Mata Mineira, o sul de Minas Gerais, o estado do Rio de Janeiro e boa parte do norte do estado de São Paulo, chegando até Campinas. Apesar de serem chamados de “saguí-da-serra” devido à maior abundância nas regiões montanhosas, essas espécies também podem ser encontradas em altitudes relativamente baixas, próximas ao nível do mar, como na Serra do Mar e em áreas de 100 a 300 metros de altitude em Minas Gerais.
Ameaças e conservação: Ambas as espécies estão ameaçadas principalmente pela perda de habitat, um problema grave na Mata Atlântica devido ao desmatamento e à fragmentação florestal. Além disso, vivem em fragmentos florestais pequenos e isolados, o que dificulta a manutenção de populações viáveis.
Outra ameaça significativa é a introdução de outras espécies de saguis, trazidas de outras regiões do Brasil para as áreas onde o saguí-da-serra e o saguí-da-serra-escuro ocorrem naturalmente. Essas espécies exóticas, embora nativas do Brasil, são consideradas alóctones nessas regiões e têm causado hibridação com as espécies locais, comprometendo o patrimônio genético dos saguis-da-serra. A hibridação tem ocorrido em alta velocidade, a ponto de algumas populações originais já não serem mais encontradas em áreas onde antes eram comuns.
Para conter essa ameaça, pesquisadores desenvolvem ações de manejo que incluem a captura e esterilização dos híbridos, evitando sua reprodução e a consequente perda genética das espécies originais. Os animais esterilizados são devolvidos à natureza, onde continuam exercendo seu papel ecológico, como predadores de insetos e presas para aves de rapina e outros predadores, além de dispersores de sementes.
Projetos e iniciativas locais: Em Viçosa, Minas Gerais, o saguí-da-serra-escuro ganhou destaque como símbolo local. Um projeto coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa desenvolve ações de conservação e reprodução dessas espécies ameaçadas. A cidade instituiu o dia municipal do aurita em 17 de junho e realiza anualmente a “Semana do Aurita” para promover a conscientização ambiental.
Além disso, a parceria com empresários locais resultou na criação de uma marca de cerveja chamada “Aurita”, cuja venda contribui financeiramente para o projeto de conservação. Essa iniciativa exemplifica como a sensibilização e a educação ambiental podem mobilizar a comunidade para a proteção da biodiversidade.
No Vale do Rio Doce, quatro municípios — Governador Valadares, Conselheiro Pena, Santa Rita do Itueto e Resplendor — criaram leis municipais de proteção ao saguí-da-serra. Uma dessas cidades chegou a lançar uma moeda local chamada “Berrima”, que reforça o engajamento da população na conservação da espécie e na economia local.
Entenda melhor
O termo “mico” é usado popularmente para designar saguis em várias regiões do Brasil, especialmente na Amazônia e no Centro-Oeste, embora se refira a espécies diferentes. A expressão “pagar o mico”, comum no país, tem origem na associação com o comportamento engraçado e espontâneo desses pequenos primatas.
Os saguis desempenham papel ecológico importante, atuando como predadores de insetos, dispersores de sementes e parte da cadeia alimentar de predadores maiores. A conservação dessas espécies é fundamental para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas onde vivem.
O desafio da hibridação genética e da perda de habitat exige ações conjuntas entre cientistas, gestores públicos e a sociedade civil para garantir a sobrevivência dessas espécies únicas da Mata Atlântica.