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Me diz uma coisa, por que algumas palavras escritas com ‘s’ tem som de ‘z’?

Mestra em linguística Lígia Boareto, explica as diferentes pronúncias de vocábulos como 'trânsito' e 'consolar'
Me diz uma coisa
Mestra em linguística Lígia Boareto, explica as diferentes pronúncias de vocábulos como 'trânsito' e 'consolar'

Mestra em linguística Lígia Boareto, explica as diferentes pronúncias de vocábulos como ‘trânsito’ e ‘consolar’

O programa CBN Papo dedicou o último bloco a uma dúvida que muitas pessoas carregam: por que o “s” em palavras como trânsito soa como um “z”, enquanto em outras, como consolar, mantém o som de “s”? A pergunta, trazida entre exemplos musicais — incluindo um trecho de uma canção de Gal Costa — e observações sobre alfabetização, levou apresentadores e linguistas a discutir hipóteses históricas e fonéticas que tentam explicar a irregularidade.

O som do “s” depois de consoante: padrões e exceções

Na fala do português brasileiro, o fonema representado pela letra s pode ser pronunciado como [s] ou como [z]. Em palavras como trânsito, transação e transar, o s aparece após a consoante n e tende a ser articulado como som de [z]. Já em termos como consolar ou imensidão há também o encontro n + s, mas a realização fonética nem sempre segue a mesma regra — e existem casos como transiberiano em que o s mantém o som de [s].

Quais são as explicações propostas pelos especialistas?

Linguistas apontam duas linhas principais de explicação. Uma atribui o fenômeno à origem das palavras: o prefixo latino trans- teria se preservado em muitos vocábulos compostos, influenciando a pronúncia histórica. Outra hipótese recorre à fonética: a letra n que aparece antes do s pode funcionar apenas como marca de nasalização da vogal anterior, de modo que, se imaginarmos essa nasalização representada por um til (ã), o s ficaria entre vogais e tenderia naturalmente a ser sonorizado (passando a [z]).

Ambas as justificativas têm limitações — a formação histórica não explica todas as exceções, e a solução puramente fonética não resolve casos em que a fronteira morfológica entre prefixo e base interfere na pronúncia. Em outras palavras, a distribuição dos sons resulta tanto de processos históricos quanto de escolhas consolidadas pelos falantes.

Impactos na alfabetização e no uso cotidiano

Professores e pais sentem no dia a dia a dificuldade de transmitir regras a crianças e a estrangeiros. A aparente irregularidade complica o ensino da leitura e da escrita, e reforça a ideia de que a ortografia e a pronúncia do português são em parte produtos de evolução social e de eufonia — aquilo que soa melhor ou mais natural entre falantes tende a se estabilizar.

Ao final do debate, ficou claro que não existe uma resposta única e definitiva: a variação é fruto de fatores históricos, fonéticos e sociais, e a norma linguística se consolida na prática comunicativa. A língua segue, portanto, em transformação, guiada por usos, padrões e preferências dos próprios falantes.

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