Ouça o 1º bloco do programa de 15 de março
Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que muitos jovens brasileiros estão postergando a entrada no mercado de trabalho para investir em estudos e qualificação — um tema também debatido no Almanaque CBN. O fenômeno, segundo especialistas, reflete maior competitividade, desalinhamento entre formação acadêmica e exigências profissionais e diferenças nas expectativas entre empregadores e candidatos.
Adaptação entre formação e mercado
Adriél-louis Genaro, supervisor do Centro de Integração Empresa-Escola (CIE), afirma que a lacuna entre educação formal e demandas empresariais persiste desde a criação do órgão, em 1964. Apesar de avanços legais, como a regulamentação do estágio em 1977 e sua revisão em 2008, o currículo continua insuficiente para muitas das necessidades do mercado.
Genaro destaca que, além de conhecimentos técnicos básicos — como informática —, as empresas valorizam perfil comportamental: proatividade, iniciativa e boa comunicação. O CIE registra que cerca de 25% das vagas oferecidas ficam sem preenchimento por falta de candidatos adequados, uma situação frequentemente atribuída à resistência dos jovens a mudanças e à falta de comprometimento profissional.
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Expectativas e comportamento dos jovens
Para o especialista em recursos humanos Dimas Facioli, o processo seletivo tornou-se mais complexo. Ele compara que, há duas décadas, era necessário avaliar cerca de 10 candidatos para escolher três; hoje, esse número pode chegar a 150 para as mesmas vagas. Facioli aponta discrepância entre as expectativas dos jovens — que muitas vezes buscam condições próximas às do ambiente escolar, com horários rígidos e remuneração elevada — e a realidade empresarial, que exige desde cedo capacidade de resolver problemas e assumir responsabilidades.
O psicólogo Carlos Eduardo Lopes observa que parte da geração atual enxerga o trabalho sobretudo como fonte de renda, com menos identificação por uma carreira ou prazer pelo ofício, e atribui esse quadro a uma formação que nem sempre estimula o gosto pelo conhecimento e hábitos de comprometimento. Genaro complementa que desinteresse e dispersão levam empresas a solicitar substituições de jovens contratados e que lares mais protegidos podem postergar a autonomia profissional.
Estágios, efetivação e diferenças regionais
Dados do CIE mostram que 64% dos jovens que ingressam em estágios no ensino superior são efetivados: 49% já no primeiro ano de estágio e 15% após mudança de vaga. Os números indicam que estágios continuam sendo uma via efetiva de inserção no mercado para quem os acessa.
No entanto, realidades locais expõem outros desafios. Em cidades como Ribeirão Preto há oferta de profissionais formados, mas empresas enfrentam dificuldade para preencher vagas especializadas, como na área médica, evidenciando que somente o diploma não garante adequação às necessidades regionais.
O diagnóstico aponta para a necessidade de ajustes simultâneos: maior integração entre currículos e demandas do mercado, estímulo a competências socioemocionais e expansão de oportunidades práticas, especialmente por meio de estágios, podem facilitar a transição dos jovens para o emprego e reduzir o descompasso entre oferta e demanda.



