Número foi superado em 2023 e, entre as explicações, estão os efeitos da pandemia e o excesso de telas; ouça o ‘Filhos e Cia’
Um levantamento da rede de atenção psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2013 e 2023 revelou um aumento significativo nos transtornos relacionados à ansiedade em todas as faixas etárias, No Brasil, crianças e adolescentes têm mais registros de ansiedade que adultos, com destaque para a população pediátrica, que inclui crianças e adolescentes até 19 anos, 11 meses e 29 dias, conforme definição da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos últimos dez anos, esses transtornos foram mais frequentes entre os jovens do que em adultos acima de 20 anos.
Prevalência e fatores associados: O crescimento dos casos de ansiedade em crianças e adolescentes não é um fenômeno recente, embora tenha se acelerado após a pandemia de Covid-19. A exposição excessiva às telas é apontada como um dos fatores que contribuem para esse aumento, mas não explica completamente o quadro. Especialistas também destacam que a pandemia pode ter intensificado os sintomas, mas o problema já vinha sendo observado antes do período pandêmico.
Diferenciação entre ansiedade normal e patológica
É importante distinguir a ansiedade normal, que é uma resposta natural e até benéfica diante de situações desafiadoras, da ansiedade patológica, que causa prejuízos significativos à vida da criança ou adolescente. A ansiedade normal pode motivar o indivíduo a estudar ou a se organizar financeiramente, por exemplo. Já a ansiedade patológica se manifesta por sintomas incapacitantes, como crises de pânico, medo intenso de ir à escola e isolamento social.
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Identificação e sinais de alerta: Os pais devem estar atentos a sinais que indicam prejuízo social, especialmente no ambiente escolar. Sintomas como dores de barriga frequentes antes de ir à escola, medo persistente, queda no desempenho acadêmico e perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas podem indicar transtornos de ansiedade. Nem todas as crianças com ansiedade desenvolvem crises de pânico, mas qualquer prejuízo social ou escolar deve ser motivo para buscar ajuda profissional.
Transtornos depressivos e aumento dos suicídios na faixa pediátrica: Além da ansiedade, o levantamento do SUS também apontou aumento nos transtornos depressivos em todas as faixas etárias, com maior impacto entre crianças e adolescentes. Dados recentes indicam que, embora a maioria dos suicídios ainda ocorra entre adultos, a taxa de suicídios cresceu mais rapidamente na população pediátrica, o que acende um alerta para a necessidade de compreender melhor esse fenômeno e implementar medidas preventivas eficazes.
Prevenção e papel do pediatra: A prevenção dos transtornos mentais em crianças e adolescentes passa pelo acompanhamento regular com o pediatra, que é muitas vezes o primeiro profissional procurado pela família ao perceber mudanças no comportamento do jovem. O pediatra pode identificar sinais de depressão, que nem sempre se manifestam como tristeza, mas podem aparecer como irritabilidade prolongada. A persistência dos sintomas por mais de duas semanas deve ser motivo de atenção.
O diagnóstico precoce é fundamental para encaminhar o paciente a um profissional de saúde mental, como o psiquiatra infantil. No entanto, há uma carência de especialistas na rede pública, o que dificulta o acesso ao tratamento adequado. Essa situação reforça a necessidade de políticas públicas que ampliem a cobertura e o manejo da saúde mental infantojuvenil.
Comportamentos isolados e ansiedade: Comportamentos como morder a gola da camiseta durante jogos no celular podem ocorrer em crianças, mas não são, isoladamente, indicativos de ansiedade. Esses atos podem estar relacionados a outros fatores, como sintomas de hiperatividade, que exigem avaliação clínica mais detalhada para um diagnóstico correto.
Panorama
O aumento dos transtornos de ansiedade e depressivos em crianças e adolescentes, aliado ao crescimento da taxa de suicídios nessa faixa etária, evidencia a urgência de fortalecer a rede de atenção psicossocial no Brasil. A atuação integrada entre pediatras, profissionais de saúde mental e políticas públicas é essencial para oferecer suporte adequado e prevenir desfechos trágicos.