Principal problema é a queda dos preços do milho e da soja, que causa inadimplência; região de Ribeirão será menos impactada
O número de produtores rurais no Brasil que entrou com pedido de recuperação judicial aumentou seis vezes em 2023, segundo dados da Serasa Experian. O fenômeno contrasta com a década de expansão do agronegócio nacional, que colocou o país no topo das exportações globais de soja em 2013 e, mais recentemente, do milho.
Queda de preços e reflexos financeiros
Desde meados de 2022, as cotações da soja e do milho registram queda motivada por uma oferta global abundante, que compensou os efeitos das perturbações provocadas pela guerra na Ucrânia. Um indicador da Bloomberg para as principais commodities agrícolas caiu quase 16% no ano passado, a maior queda em uma década, e no Brasil os preços recuaram ainda mais, negociados com descontos significativos em relação aos contratos futuros de Chicago.
Esse movimento de preços vem pressionando a liquidez dos produtores e afetando instrumentos financeiros ligados ao setor, como os fiagros, cujo retorno depende de juros e dividendos atrelados à atividade agrícola e ao arrendamento de terras. A deterioração dos preços tem, segundo analistas, elevado a inadimplência e levado muitos produtores a buscar recuperação judicial.
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Efeitos sobre a cadeia de proteínas
Analistas apontam que a redução no custo do milho e da soja pode trazer alívio de curto prazo para produtores de aves e, em certa medida, de bovinos, porque diminui o custo da alimentação animal. Ainda assim, há preocupação com o médio prazo: a continuidade das perdas pode reduzir investimentos e oferta futura, provocando eventual escassez e elevação abrupta dos preços das proteínas animais.
O caso de Ribeirão Preto
O consultor econômico José Rita Moreira afirma que a região de Ribeirão Preto deverá sentir impactos menores porque a matriz de cultivo local é diferente e há menos produtores voltados ao milho e à soja. “Aqui, a consequência não vai ser muito grande, mas em termos nacionais isso é terrível”, diz Moreira, ressaltando que o Brasil tem tecnologia e capacidade de produção, mas carece de incentivos e de políticas públicas mais efetivas para apoiar os produtores no momento.
Moreira alerta para a necessidade de ações imediatas para mitigar riscos: “Sem acolhimento e medidas que revertam a situação, o quadro pode se tornar insustentável”.
Em suma, o setor enfrenta uma combinação de preços baixos e maior pressão por inadimplência que exige respostas coordenadas do mercado e do poder público para evitar impactos mais profundos na produção e no abastecimento.