João Túbero recebe Israel Teoldo, coordenador do curso de Especialização em Futebol e do NUPEF da UFV
O programa “Nas Quatro Linhas”, O jogo do passado era menos coletivo, transmitido pela CBN Ribeirão Preto, promoveu um debate sobre as transformações do futebol contemporâneo, destacando suas características principais e as diferenças em relação ao futebol do passado. O convidado da edição foi o professor Israel Teoudo, doutor em Ciências do Esporto pela Universidade do Porto, com pós-doutorados em Ciência do Esporte e Neurociência Aplicada ao Esporte, além de coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Futebol (Nupef) da Universidade Federal de Viçosa e professor convidado da CBF e da Conmebol para cursos de formação de treinadores.
Transformações históricas e características do futebol contemporâneo
Segundo o professor Israel Teoudo, O jogo do passado era menos coletivo, o futebol evoluiu significativamente desde sua criação, passando por diferentes vertentes. Inicialmente, o jogo era predominantemente técnico, mas a partir da década de 1950, com a Copa do Mundo de 1954 e influências da Segunda Guerra Mundial, a preparação física das equipes ganhou destaque, especialmente com a escola do Danúbio. Na década de 1970, o futebol brasileiro tricampeão mundial evidenciou a importância da componente física, que continuou a se desenvolver nas décadas seguintes.
Nos anos 1990, a preparação física foi incorporada às categorias de base, ampliando o trabalho de desenvolvimento dos atletas. No final dos anos 2000, departamentos de saúde do atleta passaram a atuar para aumentar a longevidade dos jogadores. Nos últimos 15 a 17 anos, a componente tática ganhou relevância, condicionada pela evolução física, permitindo que as equipes preencham espaços no campo de forma mais eficiente e realizem movimentações complexas, como exemplificado pela equipe de Pep Guardiola no Barcelona a partir de 2008.
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O professor destaca que, atualmente, o preenchimento do espaço no campo é feito de maneira diferente do passado, com equipes profissionais jogando em espaços reduzidos, próximos a 30 ou 35 metros de profundidade, menor até que uma quadra de futsal. Isso exige maior lateralidade e combinações rápidas, tornando o jogo mais intenso e dinâmico.
Influência do futebol total e avanços científicos: O futebol total, praticado pela Holanda na Copa de 1974, é reconhecido como uma manifestação inicial da revolução tática, com jogadores multifuncionais e compreensão ampla dos espaços em campo. Embora naquela época não existissem subsídios científicos para replicar esse modelo, ele serviu de base para desenvolvimentos posteriores, especialmente no futebol europeu contemporâneo.
Nos últimos dez anos, a neurociência aplicada ao esporte tem indicado caminhos para a formação de jogadores com maior compreensão tática e capacidade de tomada de decisão rápida. O professor Israel ressalta que a replicação desse modelo em larga escala depende de uma formação estruturada desde as categorias de base, com conteúdos específicos para diferentes faixas etárias.
Cognição, criatividade e formação de jogadores
O futebol moderno exige dos jogadores uma elevada capacidade cognitiva, já que, em competições de alto nível, eles tomam cerca de 2.500 decisões durante uma partida de 90 minutos, contra aproximadamente 1.600 decisões em categorias de base no Brasil. Essa maior frequência de tomada de decisão requer que os atletas aprendam a pensar rápido e de forma eficaz, o que justifica a necessidade de um período de transição para jovens que passam do sub-20 para o profissional.
Para desenvolver essa habilidade, o processo de formação deve começar desde idades muito precoces, entre quatro e seis anos, para que os jogadores aprendam noções espaciais e reconhecimento de situações que facilitarão a análise e movimentação no futuro. O Nupef, coordenado pelo professor Israel, desenvolveu um caderno metodológico para a formação de jogadores inteligentes e criativos, reconhecido pela FIFA como um dos sete melhores do mundo. O material também está alinhado ao manual orientador da Conmebol, que orienta treinadores sul-americanos sobre metodologias para desenvolver essas competências.
O significado da criatividade no futebol e o papel do treinador: O professor Israel destaca que a criatividade no futebol consiste em apresentar soluções inovadoras baseadas em situações recorrentes, gerando resultados coletivos para a equipe. Jogadores como Garrincha, Maradona, Ronaldinho Gaúcho e Neymar exemplificam essa criatividade em diferentes épocas, sempre valorizada, especialmente no futebol contemporâneo, onde o espaço para ações criativas é mais reduzido.
Quanto à liberdade dos jogadores, o especialista ressalta que o futebol atual é mais coletivo e exige que o atleta compreenda não apenas sua função, mas também as funções dos companheiros, incluindo aspectos como ambidestria funcional. Isso torna o jogo diferente do passado, com uma organização coletiva maior e uma componente tática fundamental para o funcionamento do time.
Sobre o papel dos treinadores, Israel Teoudo afirma que eles são protagonistas na formação dos jogadores, mas que o processo exige trabalho conjunto e um currículo estruturado que aborde conteúdos táticos e cognitivos desde as categorias de base. O treinador deve estar bem formado para aplicar metodologias que desenvolvam a inteligência e criatividade dos atletas, pois sem essa formação adequada, não é possível formar jogadores de alto nível.
Entenda melhor
O Núcleo de Pesquisas e Estudos em Futebol (Nupef) da Universidade Federal de Viçosa disponibiliza materiais e pesquisas sobre a formação de jogadores e as tendências do futebol contemporâneo. O professor Israel Teoudo pode ser acompanhado nas redes sociais pelo Instagram @israel.teoudo e do Nupef @nopef. Mais informações estão disponíveis no site www.nucleofutebol.ufv.br.