Luis Felipe Toledo, professor titular do curso de ciências biológicas da Unicamp fala sobre o anfíbio mais popular do Brasil
O sapo-cururu é uma das espécies mais populares e conhecidas no Brasil, O popular sapo-cururu, presente em praticamente todo o território nacional. O nome “cururu” tem origem na linguagem indígena e significa “sapão”, uma referência ao tamanho avantajado desse anfíbio. Além de ser um termo comum na cultura popular, o cururu também é um ritmo musical tradicional da viola caipira, presente em poesias e canções brasileiras.
Segundo o professor Luiz Felipe Toledo, O popular sapo-cururu, da Unicamp, que é curador de vertebrados e coordenador do Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros, o sapo-cururu é um animal muito presente na vida das pessoas, frequentemente encontrado em quintais, potes de água e até dentro das casas. “Eu desafio os ouvintes a me contradizerem, pois aposto que todos têm uma história com o sapo-cururu”, afirmou Toledo.
Distribuição e espécies: No Brasil, O popular sapo-cururu, existem cerca de seis espécies de sapo-cururu, que se distribuem conforme as regiões: na Amazônia, no Mato Grosso, no Cerrado, entre outras áreas. O sapo-cururu é nativo das florestas tropicais e áreas abertas da América do Sul e América Central. No entanto, a espécie foi levada para outras regiões do mundo, como a Austrália, onde indivíduos podem atingir até três quilos, resultado da exportação do sapo brasileiro para controle de pragas.
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No Brasil, o sapo-cururu é nativo em quase todo o território, exceto em algumas áreas específicas, como Fernando de Noronha, onde é considerado invasor. A introdução nessa ilha ocorreu há cerca de 100 anos, provavelmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos montaram uma base no local e levaram os sapos para controlar insetos que poderiam transmitir doenças aos soldados e para combater pragas nas plantações.
Impactos ambientais em Fernando de Noronha
A introdução do sapo-cururu em Fernando de Noronha causou desequilíbrios ambientais significativos. Sem predadores naturais, como serpentes, a população do sapo se multiplicou rapidamente, já que uma fêmea pode produzir entre 30 mil e 40 mil ovos por vez. O sapo-cururu é um excelente colonizador e se adapta bem a diversos ambientes.
O impacto na fauna local é preocupante. O sapo-cururu se alimenta de diversas espécies, incluindo animais endêmicos e ameaçados de extinção, como lagartos e caranguejos. Há relatos, ainda que não confirmados, de consumo de filhotes de tartaruga marinha. Essas interações indicam um impacto negativo na biodiversidade da ilha, que ainda está sendo estudado para avaliar a extensão dos danos.
Deformidades e causas possíveis: Em Fernando de Noronha, aproximadamente metade da população de sapos-cururu apresenta algum tipo de deformidade, que varia desde a ausência ou excesso de dedos até a falta de membros inteiros e problemas oculares, incluindo cegueira. Apesar dessas condições, os sapos conseguem sobreviver e se reproduzir devido à ausência de predadores e à abundância de recursos.
As causas dessas deformidades ainda não foram totalmente esclarecidas. Pesquisas estão em andamento para investigar possíveis fatores químicos, como contaminação e poluição da água, e fatores genéticos, como a reprodução entre indivíduos com parentesco próximo, resultado do número limitado de sapos introduzidos na ilha.
Mitos e cuidados no manuseio: Um dos mitos mais difundidos sobre o sapo-cururu é que ele pode causar cegueira ao urinar nos olhos das pessoas. Essa crença é comum não apenas no Brasil, mas também em outros países como Austrália, Europa e Estados Unidos. Na realidade, o líquido expelido pelo sapo é composto em mais de 90% por água e serve como reserva hídrica para o animal em situações de estresse. Além disso, o sapo não tem a capacidade de mirar nos olhos humanos.
Embora o sapo-cururu não seja venenoso, existem outras espécies de sapos na Amazônia que possuem glândulas capazes de esguichar veneno, mas elas são raras e de difícil contato com humanos. Quanto ao manuseio, é importante destacar que a legislação brasileira proíbe o manejo de animais silvestres sem autorização. Caso o sapo entre em uma residência, o ideal é capturá-lo com cuidado, evitando agitação, e soltá-lo em um local adequado fora da casa.
Práticas populares como temperar o sapo com sal para matá-lo são prejudiciais e causam sofrimento ao animal, pois ele respira pela pele e o sal provoca asfixia. Além disso, o sapo-cururu é importante para o controle de pragas urbanas, alimentando-se de baratas, escorpiões e aranhas, sendo um aliado no equilíbrio ambiental próximo às residências.
Informações adicionais
O sapo-cururu desempenha um papel ecológico significativo no controle de insetos e outros pequenos animais, contribuindo para a redução de pragas que podem ser nocivas à saúde humana. A convivência com essa espécie, apesar de alguns mitos e preconceitos, é benéfica para o ambiente doméstico e para a biodiversidade local. Estudos continuam a investigar os impactos ambientais da espécie em áreas onde ela foi introduzida e as causas das deformidades observadas em algumas populações.