Na semana passada 57 lavradores foram resgatados em Pedregulho; Pesquisador Murilo Celli aborda o assunto
Nesta semana, a região de Franca, São Paulo, registrou mais um caso de trabalho análogo à escravidão. Famílias inteiras vindas de Aracatu, na Bahia, foram encontradas trabalhando na colheita de café em uma fazenda de Pedregulho, sem contrato formalizado e com pagamento previsto apenas ao fim da safra.
Condições precárias de trabalho e transporte
As condições de trabalho e transporte eram desumanas. Cerca de 70 pessoas viajaram em um ônibus sem espaço para os pés. O alojamento era insalubre, com três cômodos abrigando 57 funcionários, incluindo cinco casais com crianças dormindo no mesmo quarto. A falta de higiene e distanciamento social gerou preocupações sanitárias.
Caracterizando o trabalho escravo contemporâneo
O internacionalista e pesquisador Murilo Selle esclareceu que o trabalho análogo à escravidão, embora a escravidão tenha sido abolida em 1888, continua a existir no Brasil e no mundo. Desde 1995, o Estado brasileiro reconhece sua existência, caracterizada por trabalho forçado, condições degradantes, servidão por dívida ou jornada exaustiva. Basta um desses fatores para configurar a situação como trabalho escravo contemporâneo. Apesar da previsão legal desde 1940 (artigo 149 do Código Penal), somente em 2003 houve uma definição mais objetiva do crime.
Leia também
Combate ao trabalho escravo e dados alarmantes
O Ministério Público do Trabalho acompanha esses casos, principalmente no setor agrícola. De 1995 a 2021, 56.021 trabalhadores foram resgatados de situações análogas à escravidão no Brasil, sendo 78% na área rural. Embora a questão racial não seja o único fator, 77% dos resgatados se declaram não brancos, indicando uma forte correlação com a pobreza crônica. O combate requer políticas públicas multidisciplinares, envolvendo combate à pobreza, inserção no mercado de trabalho e educação, para que as pessoas conheçam seus direitos e busquem alternativas.
A recorrência de casos como o de Pedregulho e outro semelhante em Ituverava, em abril, com 22 trabalhadores do Maranhão em situação precária, demonstra a necessidade urgente de ações efetivas para erradicar essa prática.



