O que o futebol pode aprender com outras modalidades esportivas
Muito bom dia para você que acompanha a programação da CBN Ribeirão Preto! Está começando o ‘Nas Quatro Linhas’, nosso encontro de todos os sábados para um bate-papo sobre os temas mais atuais do futebol. Hoje, vamos explorar o que o futebol pode aprender com outras modalidades esportivas.
A inspiração para este programa veio do treinador espanhol Luiz Henrique, campeão da Champions League pelo Paris Saint-Germain, que decidiu assistir aos jogos do clube nas tribunas, buscando uma visão completa do campo, inspirando-se nos treinadores de rugby. Para enriquecer nossa discussão, convidamos Sérgio Figueira, formado em educação física, com licença UEFA e vasta experiência nas categorias de base do Anderlecht e atualmente no Royal Charleroi Sporting Club, ambos da Bélgica.
A Importância da Diversificação Esportiva na Formação
No futebol, observa-se uma tendência à especialização precoce, com jovens focando exclusivamente no esporte desde cedo. Perguntamos a Sérgio Figueira sobre a importância de praticar outras modalidades para o desenvolvimento humano e o potencial benefício para futuros atletas de alta performance. Segundo Sérgio, a vivência em diferentes esportes amplia o repertório motor, cognitivo e social da criança, fortalecendo coordenação, habilidade, criatividade, equilíbrio, agilidade, velocidade e força. Essa diversidade permite que a criança encontre soluções para problemas com mais facilidade e evita a saturação psicológica causada pela prática exclusiva de uma modalidade.
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Sérgio exemplifica com atletas de alto nível que praticaram outras modalidades, como Ibrahimovic (taekwondo), Zidane (judô) e Nedved (judô), destacando as contribuições que essas experiências trazem para o desempenho futuro.
Influências de Outras Modalidades no Treino e Tática do Futebol
Considerando o treino e a organização tática, questionamos Sérgio sobre como outras modalidades esportivas podem influenciar o futebol. Ele nos convida a pensar na capoeira, uma expressão cultural brasileira que mistura luta e dança, e compartilha sua experiência como preparador físico ao lado de profissionais do handebol, basquete e futsal. Essas modalidades contribuíram para sua formação como treinador, ampliando sua visão de jogo.
Sérgio destaca que o futebol pode buscar no basquete, handebol e futsal exemplos de conceitos como ocupação de espaço, transições rápidas, movimentação sem a bola e conexões entre os companheiros. O voleibol pode inspirar o conceito do ‘terceiro homem’, enquanto o handebol oferece lições sobre deslizamento de defesas e defesas mistas. A capoeira, por sua vez, pode contribuir com ritmo, mobilidade, modicidade, elementos sonoros e a percepção de tempo e espaço.
Estudos mostram que a prática de outros esportes, como o hóquei sobre grama, pode melhorar a precisão do passe e as conexões entre os jogadores no futebol. A chave está na abertura de mentalidade para buscar elementos que possam ser utilizados em diferentes modalidades.
Esportes Coletivos vs. Individuais e Esportes de Invasão vs. Esportes de Rede
Exploramos se esportes coletivos podem aprender com modalidades individuais e vice-versa, e se esportes de invasão (futebol, rugby, futebol americano, basquete) podem se inspirar em esportes de rede (vôlei, tênis). Sérgio reitera que todas as modalidades possuem elementos que podem ser aproveitados mutuamente.
Dos esportes individuais, pode-se extrair a disciplina, a autogestão emocional, o foco e o respeito à hierarquia. Dos esportes coletivos, a cooperação e a comunicação. No judô, por exemplo, a necessidade de um adversário forte para evoluir promove uma visão do outro que impulsiona o crescimento individual.
Nos esportes de rede, a gestão do erro é um fator crucial. A capacidade de esquecer um erro e seguir em frente é valiosa. No futebol, o erro é frequentemente exacerbado, mas deve ser visto como parte do processo de aprendizado. É importante questionar o motivo do erro e o que se tentava alcançar, em vez de apenas criticar.
A inovação de Luiz Henrique, assistindo aos jogos do Paris Saint-Germain das arquibancadas, levanta a questão dos benefícios e desvantagens dessa mudança de perspectiva. Sérgio reconhece a possibilidade de uma visão mais ampla do jogo, mas pondera a perda da conexão com os jogadores, a falta da liderança à beira do campo e a dificuldade de interagir em tempo real. Ele prefere vivenciar o jogo de perto, valorizando a comunicação direta com os jogadores.
Questionado sobre possíveis mudanças nas regras do futebol, Sérgio sugere permitir a cobrança de laterais com os pés na área do ‘boxe’, inspirando-se no Campeonato de Aspirantes de São Paulo. Ele defende que o gol é o momento supremo do futebol e que essa mudança poderia aumentar o número de gols nas partidas. Propõe também a utilização de ‘challenges’ como no vôlei para o VAR, a fim de agilizar as decisões. Outras ideias incluem parar o tempo quando a bola sai (reduzindo o tempo de jogo para 40 minutos) e liberar o número de substituições.
Por fim, Sérgio compartilha a percepção de que o fator econômico, questões políticas e culturais, e a opinião pública contribuem para o conservadorismo no futebol. Há uma preocupação em não descaracterizar o esporte com mudanças nas regras.
Agradecemos a Sérgio Figueira por enriquecer nossa compreensão sobre a relação do futebol com outros esportes. Ao explorar a complexidade de outras modalidades e identificar semelhanças com o futebol, podemos aprender e evoluir. Agradecemos também a sua companhia e convidamos você a ouvir o programa no site da CBN Ribeirão Preto ou no seu tocador de podcast preferido. Até o próximo sábado!