Colunista fala do artifício da ‘mentira consentida’ na literatura
Nesta semana, nosso programa abordou o tema da verdade e da mentira, com foco na ‘mentira consentida’ presente na literatura. A discussão foi inspirada em um e-mail de nossa ouvinte Ângela do Carmo Pestana, que destacou a importância da pluralidade de leituras e a necessidade de discernimento crítico.
A Mentira Consentida na Literatura
A literatura, por sua natureza ficcional, permite a criação de mundos e narrativas fantásticas. Um exemplo interessante é a obra de Guimarães Rosa, que brinca com a ambiguidade da linguagem e a construção da verdade. Como ele mesmo disse: “é verdade porque fui eu que inventei”. A arte, nesse sentido, utiliza a mentira como ferramenta para transmitir verdades profundas e múltiplas perspectivas.
O Conto de Guimarães Rosa e a Palavra “Famigerado”
Para ilustrar a ‘mentira consentida’, analisamos um conto de Guimarães Rosa que explora o significado da palavra “famigerado”. Nele, quatro homens a cavalo procuram um médico não para uma consulta médica, mas para decifrar o sentido da palavra que fora usada para se referir a um deles. O médico, com sua habilidade linguística, explica que “famigerado” pode significar tanto “célebre” quanto “notório”, dependendo do contexto. Essa ambiguidade permite ao personagem principal, um bandido, interpretar a palavra como um elogio, escapando de uma possível vingança. A narrativa, portanto, utiliza a mentira para criar um desfecho inesperado e divertido.
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A Verdade Através da Ficção
A discussão sobre verdade e mentira na literatura nos leva a refletir sobre a capacidade da ficção de revelar verdades ocultas. A ‘mentira consentida’ da literatura não é uma falsidade enganosa, mas sim uma construção artística que amplia nossa compreensão do mundo e da condição humana. Através da manipulação da linguagem e da criação de narrativas, a literatura nos permite explorar diferentes perspectivas e construir novos sentidos. A participação de Ângela e a riqueza da obra de Guimarães Rosa enriqueceram nossa conversa, demonstrando a força da literatura para nos confrontar com a complexidade da verdade e da mentira.