Giuliano Tamura e Ananda Porto conversaram com o biólogo Gustavo Figueiroa sobre o prejuízo natural das áreas afetadas pelo fogo
O Pantanal enfrenta neste ano um dos piores cenários de incêndios de sua história, Pantanal enfrenta situação crítica por causa dos incêndios, com um aumento significativo da área queimada em comparação a 2020. Gustavo Figueiro, diretor de comunicação do SOS Pantanal e membro do Grupo de Resposta a Animais em Desastres (GRADE), destaca que o bioma está passando pelo ano mais seco já registrado, o que contribui para a propagação acelerada dos incêndios.
Segundo dados apresentados por Figueiro, Pantanal enfrenta situação crítica por causa dos incêndios, entre 1º de janeiro e 31 de agosto de 2023, a área queimada no Pantanal foi 44% maior do que no mesmo período de 2020, ano que já havia sido marcado por incêndios devastadores. O aumento da seca, aliado à alta quantidade de biomassa acumulada, cria condições propícias para o alastramento do fogo.
Contexto e causas dos incêndios
O Pantanal tem sofrido uma crescente de incêndios nos últimos cinco anos, reflexo de um processo de secagem progressiva do bioma. Nas últimas quatro décadas, o Pantanal perdeu mais de 21% de sua superfície de água, um fator crítico para o equilíbrio ambiental da região. A escassez hídrica está diretamente relacionada às mudanças climáticas, que têm intensificado eventos extremos e alterado o regime de chuvas.
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Além das condições climáticas, a ação humana é responsável por mais de 95% dos incêndios no Pantanal, sejam eles intencionais ou acidentais. Práticas como queimadas para limpeza de terrenos, coleta de mel e outras atividades rurais, muitas vezes realizadas fora do período adequado, acabam desencadeando incêndios de grande proporção. Figueiro ressalta que, mesmo quando o fogo é utilizado de forma controlada, a falta de preparo e o momento inadequado podem resultar em perdas irreversíveis.
Prevenção e manejo do fogo: Para enfrentar o problema, a prevenção é apontada como o método mais eficaz e econômico. Embora o combate direto ao fogo seja necessário, ele é considerado um esforço custoso e com resultados limitados. O manejo integrado do fogo, que inclui técnicas como queimas prescritas e abertura de aceiros, é uma estratégia adotada globalmente para preparar o território e reduzir a propagação dos incêndios durante períodos críticos.
As queimas prescritas são realizadas em áreas estudadas e em épocas com condições climáticas favoráveis, como umidade adequada no solo e no ar, minimizando o risco de perda de controle. A abertura de aceiros, faixas de contenção, facilita o acesso das equipes de combate e ajuda a segmentar o território para impedir a expansão do fogo.
Investimentos em infraestrutura, como pontos de água e formação de brigadas especializadas, são essenciais para fortalecer a capacidade de resposta. Órgãos como o Ibama, Corpo de Bombeiros e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) desempenham papel fundamental nesse contexto.
Impactos das mudanças climáticas e necessidade de adaptação
As mudanças climáticas têm alterado drasticamente os padrões climáticos tradicionais, tornando obsoletos os calendários de queimadas e manejo do fogo baseados em estações fixas. O inverno, por exemplo, não apresenta mais um padrão definido, com variações rápidas entre dias frios e quentes, o que dificulta o planejamento das ações de prevenção.
Figueiro destaca que a legislação ambiental precisa ser atualizada para acompanhar essas mudanças e permitir maior flexibilidade na gestão do fogo. A adaptação dos cronogramas de manejo deve considerar janelas climáticas específicas, possibilitando o uso controlado do fogo em períodos seguros, mesmo que fora das datas tradicionais.
Abastecimento hídrico e biodiversidade do Pantanal: O Pantanal é um bioma que depende diretamente do abastecimento de água proveniente de rios que nascem em outras regiões, como o Planalto do Cerrado e o sul da Amazônia. A quantidade de chuva que cai no Pantanal é comparável à da Caatinga, um bioma semiárido, mas a planície pantaneira mantém sua umidade graças ao aporte hídrico desses rios.
Porém, a degradação ambiental nas áreas de nascente e nas bacias hidrográficas, causada pelo desmatamento e pela ocupação irregular, compromete a produção de água. A proteção das áreas de preservação permanente (APPs) e a manutenção das florestas são essenciais para garantir o fluxo hídrico que sustenta o Pantanal.
A biodiversidade do Pantanal é vasta, com cerca de 2 mil espécies de plantas, 582 espécies de aves, 132 de mamíferos, 113 de répteis e 41 de anfíbios. Essa riqueza depende da disponibilidade de água e é ameaçada pelo processo de desertificação causado pela seca prolongada e pelos incêndios.
Entenda melhor
O Pantanal apresenta um ciclo natural de cheia e seca, que é fundamental para a manutenção de sua biodiversidade. A cheia não é resultado direto das chuvas locais, mas do aporte de água dos rios que se originam em outras regiões. A alteração desse ciclo por fatores climáticos e humanos tem impactos profundos no equilíbrio do bioma.
O manejo integrado do fogo é uma prática reconhecida internacionalmente para a prevenção de incêndios florestais. Envolve o uso controlado do fogo para reduzir a biomassa acumulada e preparar o ambiente para períodos de maior risco, diminuindo a intensidade e a extensão dos incêndios descontrolados.
Além das ações técnicas, a conscientização da população e o cumprimento das normas ambientais são fundamentais para reduzir a incidência de queimadas provocadas por atividades humanas.