Ouça a reportagem da CBN Ribeirão com Lis Canello
Um estudo recente revelou um dado alarmante em Ribeirão Preto: um terço das crianças inseridas em programas assistenciais abandona os estudos. A pesquisa, conduzida pela enfermeira e pós-doutoranda Renata Cristina da Penha Silveira, da USP Ribeirão Preto, lança luz sobre a complexa realidade enfrentada por essas crianças e suas famílias.
O Contexto da Pesquisa
Para compreender a fundo a situação dessas crianças, Renata Silveira realizou um estudo detalhado com participantes do Programa Saúde da Família em Ribeirão Preto. Através de entrevistas domiciliares, a pesquisadora investigou o estilo de vida, a relação com os estudos e a possível inserção no mercado de trabalho. Uma parcela significativa dessas crianças também era beneficiária do Bolsa Família, programa que condiciona o auxílio financeiro à frequência escolar.
Trabalho Infantil e Abandono Escolar
A pesquisa revelou que, de 168 crianças entrevistadas, 84 recebiam o Bolsa Família, e a maioria dessas famílias possuía renda inferior a mil reais, algumas até abaixo de meio salário mínimo por pessoa. A situação financeira precária muitas vezes leva ao abandono escolar para que as crianças possam contribuir com o sustento da casa. Das 23 crianças identificadas como trabalhadoras, 15 também recebiam o auxílio do governo. Elas relataram que o cansaço decorrente do trabalho prejudicava o desempenho escolar, levando à reprovação e ao desestímulo.
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O Dilema das Famílias
Um dado preocupante é que, mesmo entre as crianças beneficiadas pelo Bolsa Família que abandonaram os estudos, apenas uma parte ingressou no mercado de trabalho. A falta de qualificação, consequência do abandono escolar, dificulta a inserção profissional. As famílias, conscientes de que o trabalho infantil não é o ideal, justificam a necessidade da contribuição dos filhos para a renda familiar. Crianças de até 8 anos foram encontradas trabalhando, vendendo doces nas ruas ou auxiliando em mudanças.
O Futuro em Risco
Apesar das dificuldades, a maioria das crianças expressou felicidade com seu estilo de vida e ambicionava profissões como médico, enfermeiro, professor ou bombeiro. No entanto, a falta de conhecimento sobre as consequências do trabalho precoce pode comprometer a realização desses sonhos. É fundamental que profissionais da saúde orientem as famílias sobre a importância da educação e os riscos do trabalho infantil. A pesquisadora Renata Silveira ressalta que o Bolsa Família proíbe o trabalho infantil, mas muitas famílias o escondem das autoridades. A esperança é que, com intervenções adequadas, essas crianças possam ter a oportunidade de construir um futuro melhor através da educação.
A situação exige atenção e ações coordenadas para garantir que essas crianças tenham a chance de romper o ciclo da pobreza e alcançar seus objetivos.



