Mesmo sem novos diagnósticos no país, a vacinação continua sendo essencial; Ivan Savioli explica na coluna ‘Filhos e Cia’
Começou esta semana a campanha nacional de vacinação contra a poliomielite, Poliomielite: último caso da doença no Brasil foi registrado em 1989, direcionada a crianças de até cinco anos completos. A poliomielite, conhecida popularmente como paralisia infantil, é uma doença grave causada por vírus que pode levar à paralisia permanente e até à morte. No Brasil, o último caso registrado da doença ocorreu em 1989, segundo o médico pediatra e professor da USP, Dr. Ivância Viola.
“Eu nunca vi um caso de poliomielite graças à vacina, porque o último caso ocorreu quando eu ainda estava na faculdade de medicina. Espero me aposentar sem ver um caso de poliomielite no Brasil, pois seria muito triste voltar a diagnosticar essa doença depois de mais de três décadas”, afirmou o especialista.
Importância da vacinação mesmo sem casos recentes
Apesar da ausência de casos no Brasil há quase 35 anos, a vacinação continua sendo fundamental. Isso porque o vírus da poliomielite ainda circula em alguns países, o que representa um risco potencial de reintrodução da doença no país, especialmente diante da facilidade de deslocamento internacional e da queda nas taxas de cobertura vacinal.
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“O vírus ainda está circulando em poucos países, e existe o risco de ser reintroduzido aqui. Com a diminuição da cobertura vacinal, esse risco aumenta, mesmo que a poliomielite esteja restrita a poucos locais no mundo”, explicou Dr. Ivância.
Características da poliomielite e seus vírus: A poliomielite é causada por três tipos de poliovírus: 1, 2 e 3. Os tipos 2 e 3 já foram erradicados globalmente, em 1999 e 2019, respectivamente. Atualmente, apenas o poliovírus tipo 1 ainda circula no mundo e é responsável pelos casos de paralisia infantil.
Na maioria dos casos (95%), a infecção é assintomática. Em cerca de 5% dos casos, a doença se manifesta com sintomas semelhantes aos de uma gripe, como febre, fadiga, dor de cabeça, vômitos e dores no pescoço, costas e pernas. Aproximadamente 1% a 1,5% dos casos evoluem para a forma paralítica da doença, que pode causar paralisia dos membros inferiores e, em 10% desses casos, paralisia dos músculos respiratórios, o que pode levar à dependência de respiradores artificiais e até à morte.
“A paralisia infantil pode acometer qualquer músculo do corpo, mas geralmente afeta as pernas. Em casos graves, pode comprometer os músculos respiratórios, exigindo ventilação mecânica. Algumas pessoas viveram décadas dependendo do chamado pulmão de aço”, detalhou o médico.
Avanços e metas na cobertura vacinal
O estado de São Paulo apresentou avanço na cobertura vacinal contra a poliomielite, passando de 77% em 2022 para 85,6% em 2023. No entanto, a meta estabelecida é alcançar 95% do público-alvo, que são crianças entre 1 e 5 anos de idade.
Embora a maioria dos casos ocorra em crianças menores de cinco anos, a poliomielite pode afetar pessoas de qualquer idade, do nascimento até idosos.
Transição da vacina oral para a injetável: Historicamente, a vacina oral (vacina em gotinhas) foi fundamental para a erradicação da poliomielite no Brasil e no mundo. Ela é de fácil aplicação, transporte e aceitação, contendo vírus vivos atenuados que não causam a doença na maioria dos casos. Contudo, em situações raras, essa vacina pode provocar poliomielite em indivíduos não vacinados ou com sistema imunológico comprometido.
Por isso, em locais onde a transmissão do poliovírus selvagem foi interrompida, como o Brasil, a tendência é substituir a vacina oral pela vacina injetável, que contém vírus mortos e não apresenta risco de causar a doença.
“A vacina oral ainda é aplicada como reforço, mas será substituída pela injetável para eliminar o risco, mesmo que raro, de poliomielite causada pela vacina oral”, explicou Dr. Ivância.
Segurança e recomendação da vacinação: Em meio a movimentos antivacina e dúvidas sobre a segurança dos imunizantes, o especialista reforça a importância da vacinação para a proteção individual e coletiva.
“Vacine seu filho. As vacinas são extremamente seguras e foram responsáveis por salvar mais vidas do que qualquer outro avanço médico, exceto a água potável. Embora nenhum produto farmacêutico possa garantir 100% de segurança, as vacinas são muito seguras”, afirmou Dr. Ivância, citando o professor americano Paul Offit, referência mundial em imunização.
Países com circulação ativa do vírus: Atualmente, o poliovírus selvagem ainda circula em alguns países, como Afeganistão e Paquistão. Em 2022, foi registrado um caso em Moçambique, no Maláui, o que demonstra que o vírus pode surgir em locais inesperados e ser trazido para o Brasil por viajantes.
“Enquanto o vírus circular no mundo, não podemos baixar a guarda. O risco de reintrodução existe e a vacinação é a melhor forma de prevenção”, alertou o médico.
Entenda melhor
- A poliomielite é causada por três tipos de vírus, dos quais apenas o tipo 1 ainda circula globalmente.
- A vacinação é essencial para manter o Brasil livre da doença, mesmo após mais de 30 anos sem casos.
- A vacina oral está sendo substituída pela injetável para reduzir riscos raros associados à vacina oral.
- A meta de cobertura vacinal é de 95% para crianças de 1 a 5 anos, mas ainda não foi atingida em alguns estados.