País vizinho fechou o primeiro trimestre com superavit desde de 2008; ouça o ‘CBN Agronegócio’ com José Carlos de Lima Júnior
Depois de um período de relativa estabilidade, eventos internos e externos voltaram a agitar o cenário político e econômico regional — com reflexos diretos no agronegócio. Em entrevista à CBN Agronegócio, o consultor José Carlos de Lima Jr. avaliou o desempenho recente da Argentina e os impactos para produtores brasileiros.
Argentina registra superávit, mas efeitos são controversos
Nas últimas semanas, a Argentina registrou seu primeiro superávit trimestral desde 2008, impulsionado principalmente pela boa safra de milho e soja. O resultado tem sido destacado pelo governo, mas, segundo José Carlos, é preciso analisar as causas com cautela.
“A retomada da Argentina ao cenário global de produção agrícola é inegável neste ciclo de 2024”, afirmou o especialista. No entanto, ele lembra que o surgimento do superávit veio acompanhado de medidas econômicas que incluem redução de despesas públicas e uma forte desvalorização cambial. O peso chegou a níveis que pressionaram a inflação — mencionada na entrevista como alta em doze meses — e alteraram a dinâmica de receitas e despesas do país.
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Na avaliação de Lima Jr., a alta da inflação elevou a arrecadação nominal, enquanto despesas congeladas perderam valor real, criando um quadro de saldo positivo que pode não se sustentar no médio prazo. “É um alento para o mercado, mas não um milagre estrutural”, disse.
Repercussões para o agronegócio brasileiro
A retomada da produção argentina tem reflexos imediatos no Brasil. Com a oferta de farelo de soja argentina — estimada pela entrevista em cerca de 30% do mercado mundial —, os preços da soja e seus derivados tendem a pressionar para baixo. No interior, isso já provoca mudanças na ocupação de áreas: produtores que migraram para soja em tempos de preços elevados ponderam retornar a culturas como o amendoim, e contratos de arrendamento podem ser revisados para baixo.
“Quando o preço da soja cai, o arrendamento perde atratividade e o agricultor reavalia o que plantar”, observou o consultor, lembrando que decisões do campo levam em conta safras, crédito e prazos que se estendem por um a dois anos.
Clima, oferta e preços: atenção ao curto prazo
O clima também entrou na análise. Uma onda de calor e um período seco em curso afetaram culturas e caminham para influenciar cotações internacionais. O café, por exemplo, aparece entre as commodities que mais valorizaram recentemente — cerca de 30% no ano até o momento — reflexo de problemas climáticos em regiões produtoras. O cacau registrou alta ainda mais intensa em intervalo recente, pressionando mercados.
“O clima faz peripécias em diferentes continentes ao mesmo tempo; o que acontece na Ásia tem efeito direto aqui e no sul de Minas”, afirmou Lima Jr., destacando a sensibilidade das cadeias produtivas às variações meteorológicas.
Ao final da participação, o consultor convidou ouvintes interessados para um curso sobre restauração de cerrados, programado para 5 de maio em São Simão, com visitas a áreas de estudo e contato com iniciativas locais de restauração. Segundo ele, é uma oportunidade para conhecer práticas que vêm ganhando espaço na agenda do campo.
O panorama apresentado mistura sinais positivos e riscos: a Argentina volta a ganhar espaço como fornecedora global, mas desequilíbrios macroeconômicos e variáveis climáticas mantêm incertezas para produtores e mercados nas próximas safras.