Cada vez mais as empresas têm olhado para a saúde mental de seus colaboradores; ouça o ‘CBN Carreiras e Lideranças’
Pesquisas recentes reacenderam o debate sobre felicidade e trabalho. Enquanto o World Happiness Report mostrou o panorama global do bem-estar — com a Finlândia novamente no topo — um levantamento paulista provocou reflexões sobre quem deve responder pela satisfação no ambiente profissional.
Relatório global e desempenho do Brasil
O World Happiness Report, elaborado com apoio da ONU e da Gallup a partir de dezenas de milhares de entrevistas, avalia fatores como renda, liberdade, generosidade e ausência de corrupção para atribuir notas de felicidade aos países. Pelo sétimo ano consecutivo a Finlândia aparece como o país mais feliz, seguida por Dinamarca e Islândia. O Brasil, segundo o relatório, subiu quatro posições no ranking, um dado comemorado pelos analistas.
Felicidade no trabalho: responsabilidade de quem?
No plano nacional, um estudo do think tank paulistano School of Life em parceria com a recrutadora Robert Half perguntou a 400 profissionais: “A felicidade no trabalho é responsabilidade de quem?” A resposta foi contundente: 94% dos entrevistados atribuíram essa responsabilidade às empresas. A posição chamou a atenção de especialistas ouvidos pela reportagem, que entendem o número como indicativo de uma expectativa crescente sobre o papel das organizações.
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O papel das empresas e dos indivíduos
Para o professor Davi Foley, que comenta o tema há anos, parte dessa percepção decorre de um baixo nível de autoconhecimento entre os trabalhadores. Ele cita dados informais sobre o reduzido percentual de pessoas que já fizeram terapia no país como um possível fator para a tendência de transferir à companhia a responsabilidade pela própria felicidade.
Especialistas ouvidos observam, no entanto, que as empresas têm responsabilidades claras: garantir salários compatíveis com as funções, promover um ambiente que estimule boas ideias, prevenir e corrigir lideranças opressoras, e oferecer recursos e ferramentas para o bem-estar. Medidas como pesquisas de clima, políticas de saúde mental e indicadores específicos ajudam a mapear problemas, mas não substituem o papel individual na construção do bem-estar.
O debate também ganha respaldo internacional. O Butão, por exemplo, é conhecido por priorizar índices de felicidade além dos parâmetros econômicos tradicionais. E Gustavo Arnes, organizador do Congresso Internacional de Felicidade, lembra que a psicologia positiva não propõe um estado contínuo de felicidade, mas o reconhecimento das emoções positivas e negativas como partes integradas da experiência humana.
Especialistas recomendam que gestores e profissionais de RH discutam abertamente o tema com suas equipes, esclareçam responsabilidades e promovam ações sustentadas — não medidas pontuais — que conectem saúde mental e condições de trabalho. O processo, dizem, é contínuo e exige indicadores, diálogo e construção coletiva.
Para além de rankings e pesquisas, a reflexão pública sobre felicidade no trabalho aponta para a necessidade de combinar políticas organizacionais responsáveis com iniciativas que fortaleçam o autoconhecimento e a resiliência dos profissionais.