Quais os limites para o uso destas plataformas? Quem debate o assunto é o escritor e empreendedor Alan Barros
Cerca de 72 milhões de domicílios no Brasil tinham acesso à internet, Redes sociais: um aliado da informação, mas um ‘convite’ para o desequilíbrio mental, totalizando 92% da população, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Nas áreas urbanas, o percentual de acesso passou de 93% para 94%, enquanto nas áreas rurais aumentou de 78% para 81% no último ano.
Com a popularização dos celulares e das redes sociais, como Instagram, Facebook e WhatsApp, cresce a preocupação sobre o impacto dessas tecnologias na saúde mental da população. Para discutir o tema, a CBN convidou o escritor Alain Barros, autor de livros voltados à saúde mental e dependência tecnológica, que recentemente lançou uma obra na Bienal do Livro de São Paulo.
Uso inadequado das tecnologias e saúde mental
Alain Barros destaca que a principal questão é que as pessoas não foram ensinadas a utilizar as tecnologias de forma saudável. “Não aprendemos a se relacionar de forma benéfica com as tecnologias”, afirma. Segundo ele, esse desconhecimento contribui para o aumento do adoecimento mental relacionado ao mau uso das redes sociais.
Ele ressalta que, assim como não houve ensino adequado sobre emoções e saúde mental, também não houve orientação sobre o uso equilibrado das telas. “Todo mundo tem um pouco de dependência das redes sociais e da tecnologia”, reconhece, incluindo ele próprio, que realiza periodicamente um detox digital para controlar esse uso.
Detox digital como estratégia de controle: Alain explica que seu detox consiste em deletar temporariamente o aplicativo do Instagram do celular, sem excluir a conta, para passar por um período de abstinência. Ele compara esse processo ao período da quaresma, utilizado como referência temporal, e relata que, a cada ano, consegue prolongar o tempo longe da rede social, chegando a 82 dias no último detox.
O escritor destaca que essa prática é possível para ele porque sua monetização não depende exclusivamente da plataforma, o que pode ser um desafio para quem tem ganhos financeiros vinculados às redes sociais. Ele enfatiza que o controle do uso é uma escolha pessoal e que as próprias plataformas oferecem ferramentas para limitar o tempo de uso diário.
Impactos das redes sociais na autoestima e saúde mental
Ao abordar os efeitos das redes sociais na autoestima, Alain utiliza a analogia do dinheiro para explicar que a tecnologia em si não é boa nem ruim, mas o uso que fazemos dela pode ser prejudicial. Ele alerta que as redes sociais são desenvolvidas com equipes multidisciplinares, incluindo neurocientistas, que criam algoritmos para maximizar a retenção da atenção dos usuários, liberando dopamina e potencializando comportamentos compulsivos.
Segundo ele, o uso excessivo das redes sociais está associado ao aumento da depressão, ansiedade, risco de suicídio e pensamentos suicidas. “Sim, a resposta é sim, totalmente”, afirma. No entanto, ele ressalta que as redes sociais também podem ser ferramentas positivas e edificantes, dependendo do olhar e do uso que cada pessoa faz delas.
Um dos sentimentos mais nocivos gerados pelas redes sociais é a comparação, que pode prejudicar significativamente a autoestima. Alain convida os ouvintes a refletirem sobre quantas vezes acessaram as redes sociais e saíram se sentindo pior do que quando entraram, apontando que isso ocorre na maior parte do tempo devido à exposição seletiva de conteúdos que mostram apenas os melhores momentos das pessoas.
Reflexões sobre a relação com as redes sociais: O escritor destaca que a comparação constante pode levar à desvalorização da própria história, jornada e dificuldades, além de fomentar o desejo por uma vida que não condiz com a realidade pessoal. Ele observa que muitas pessoas buscam ser alguém que não são, influenciadas pela idealização presente nas redes sociais, o que pode gerar sofrimento e adoecimento emocional.
Alain Barros também compartilha sua trajetória como autor de livros sobre saúde mental, mencionando que seu primeiro livro virou peça teatral para alunos de escolas públicas. Seu livro mais recente, lançado na Bienal de São Paulo, aborda a relação entre corpo, mente, espírito e tecnologia, trazendo conceitos e tratamentos para a saúde mental, incluindo a importância do psicólogo, psiquiatra e terapias integrativas.
Ele enfatiza duas máximas presentes em sua obra: “o diagnóstico liberta” e “o autoconhecimento salva”. O livro é descrito como uma conversa leve e acessível, com o objetivo de promover o diálogo aberto sobre o uso das tecnologias e a saúde mental.
Ao final da entrevista, Alain agradece a oportunidade de contribuir para a discussão e reforça a importância de um olhar consciente e saudável sobre o uso das redes sociais e da tecnologia.
Informações adicionais
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) é uma fonte oficial de dados sobre acesso à internet no Brasil. O aumento do acesso nas áreas urbanas e rurais indica uma maior conectividade, mas também traz desafios relacionados ao uso saudável das tecnologias.
O conceito de detox digital consiste em períodos de afastamento voluntário das redes sociais para reduzir a dependência e os efeitos negativos na saúde mental. Ferramentas oferecidas por plataformas como Instagram permitem o controle do tempo de uso, auxiliando os usuários a manterem um equilíbrio.
O impacto das redes sociais na saúde mental é tema de estudos recentes que apontam para a necessidade de políticas públicas e educativas que promovam o uso consciente das tecnologias.



