Thiago Songa comenta sobre o FNM JK 2000, Willys Itamarati ou Democrata, são alguns exemplos dos veículos com nomes políticos
Neste domingo, os eleitores brasileiros irão às urnas para escolher prefeitos e vereadores que os representarão pelos próximos quatro anos. Em meio à efervescência eleitoral, Sabia que alguns carros fabricados no Brasil foram batizados, um tema curioso relacionado à política e à indústria automobilística nacional foi abordado no programa CBN Giro Sobre Rodas, com a participação da especialista Songa.
Songa destacou que, durante o desenvolvimento da indústria automobilística no Brasil, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, alguns veículos receberam nomes diretamente ligados a políticos ou a instituições governamentais. Essa prática refletia o contexto político e econômico da época, quando o setor automobilístico nacional buscava se consolidar.
Veículos com nomes políticos na indústria automobilística brasileira
Um dos exemplos mais emblemáticos é o automóvel JK, lançado em 1960 pela Feneme (Fábrica Nacional de Motores), empresa estatal que produzia caminhões e automóveis. O nome do veículo foi uma homenagem direta ao então presidente Juscelino Kubitschek, conhecido por seu Plano de Metas que visava a modernização e industrialização do Brasil. O lançamento do JK coincidia com a inauguração de Brasília, simbolizando a ambição de progresso do país. Após o golpe militar de 1964, o veículo passou a ser chamado Feneme 2000, mas o nome JK permaneceu associado ao modelo.
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Outro exemplo é o Willis Itamaraty, uma versão de luxo do Aero Willis produzida pela empresa Willis no Brasil. Lançado em 1966, o nome fazia referência ao Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, e buscava transmitir uma imagem de prestígio e sofisticação, voltada para políticos, empresários e pessoas influentes.
A empresa francesa Simca, que iniciou a produção de veículos no Brasil na década de 1960, também adotou uma nomenclatura ligada ao poder público. O modelo Simca Presidense era uma versão luxuosa, semelhante a uma mini-limousine, destinada exclusivamente a órgãos públicos, prefeituras e governos estaduais. O veículo possuía uma placa metálica gravada com o nome do primeiro proprietário, geralmente uma entidade governamental, reforçando seu uso institucional.
O projeto nacional do automóvel Democrata: Um capítulo menos conhecido da história automobilística brasileira é o projeto do Democrata, desenvolvido pela empresa Ibap (Indústria Brasileira de Automóveis Presidente) em 1964. Idealizado por Nelson Fernandes, empreendedor paulista, o Democrata era um automóvel com motor de seis cilindros e carroceria de fibra de vidro, uma inovação para a época.
O projeto chegou a apresentar protótipos e a levar o veículo para avaliação no Ministério dos Transportes em Brasília, buscando apoio para sua produção. A empresa iniciou a venda de ações para financiar a fabricação, mas enfrentou forte resistência do mercado e da concorrência. Críticas sobre a qualidade do carro e acusações de fraude foram feitas, alegando que o projeto era uma tentativa de arrecadar dinheiro sem a intenção real de produzir os veículos.
Após um processo judicial que durou cerca de 20 anos, encerrado em 1986 por falta de provas, a empresa Ibap foi abandonada e o projeto não avançou. Foram produzidas aproximadamente 30 carrocerias e cinco automóveis completos, que chegaram a circular oficialmente. O Democrata permanece como um símbolo de um sonho nacionalista e empreendedor pouco conhecido na indústria automobilística brasileira.
Contexto atual e tendências de nomenclatura
Songa ressaltou que, atualmente, é improvável que novos automóveis recebam nomes relacionados a políticos. A indústria automobilística contemporânea prefere utilizar nomes que não carreguem conotações políticas, especialmente em um país marcado por polarizações. As estratégias de marketing adotam nomes ligados a elementos naturais, como ventos e montanhas, que são neutros e têm apelo internacional.
Um exemplo citado foi o nome Santana, que remete aos ventos de Santa Ana, fenômeno climático da Califórnia, Estados Unidos. Essa escolha evita associações políticas e facilita a aceitação do produto em diferentes mercados.
Entenda melhor
A relação entre nomes de automóveis e figuras políticas ou instituições governamentais no Brasil reflete um período histórico em que a indústria nacional buscava afirmar sua identidade e seu papel no desenvolvimento econômico do país. Veículos como o JK, o Willis Itamaraty e o Simca Presidense são exemplos dessa ligação simbólica entre política e indústria.
Por outro lado, o projeto do Democrata ilustra os desafios enfrentados por empreendedores nacionais diante da concorrência e das dificuldades econômicas e legais. A rejeição ao uso de nomes políticos atualmente demonstra a mudança de estratégia das montadoras, que buscam neutralidade e apelo global para seus produtos.