Leonardo Boff conversou com a CBN Ribeirão
O papa Francisco chegou ao Brasil em meio a manifestações que ocorrem em diversas regiões do país, Visita do Papa Francisco ao Brasil na JMJ, principalmente mobilizadas pela juventude. A visita do pontífice, que é argentino, ocorre em um momento de fervor social, com a juventude brasileira participando ativamente dos eventos programados para seu encontro.
Para comentar a vinda do papa ao Brasil, Visita do Papa Francisco ao Brasil na JMJ, a CBN Ribeirão Preto entrevistou o teólogo Leonardo Boff, um dos principais expoentes da Teologia da Libertação no país. Boff, que já foi membro da Ordem dos Franciscanos e atualmente é presidente do Centro de Defesa dos Direitos Humanos em Petrópolis, destacou a legitimidade das manifestações juvenis e o papel do papa em estimular a participação social.
“O papa Francisco já declarou que as manifestações dos jovens são legítimas e justas, e conclamou os políticos a ouvirem a voz das ruas. Nos discursos que fará aqui no Brasil, ele se dirigirá primeiro aos jovens, estimulando o entusiasmo, o sonho, buscando uma sociedade mais aberta, mais participativa, mais justa, incluindo os pobres”, afirmou Leonardo Boff.
Segundo o teólogo, o papa tem uma visão clara da opção pelos pobres e deve transmitir uma mensagem de ânimo aos jovens, condenando a violência e cobrando dos políticos uma postura ética e comprometida com o bem comum. Ele ressaltou que Francisco critica a corrupção e o uso do poder para benefício próprio, defendendo uma política que sirva à população.
“Ele tem autoridade moral para fazer esse apelo. Em seus primeiros meses como papa, deixou claras algumas linhas de fundo: a centralidade dos pobres, a crítica ao sistema financeiro globalizado, que é insensível e martiriza povos inteiros. Além disso, fez uma reforma na figura do papa, renunciando títulos e símbolos de poder para mostrar uma igreja mais simples e ligada aos pobres”, explicou Boff.
Leonardo Boff destacou que o papa Francisco abandonou a imagem tradicional de santidade e autoridade para se apresentar como um pastor próximo do povo, rejeitando palácios, roupas e ornamentos que simbolizam poder. Essa postura reforça a ideia de uma igreja aberta e acolhedora, que não se fecha em doutrinas rígidas ou se isola do mundo.
Durante a visita, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, deve propor ao papa apoio a projetos internacionais voltados ao combate da pobreza e da exclusão social, com ênfase em iniciativas para o continente africano. Boff avaliou que essa proposta está alinhada com o discurso e a prática de Francisco, que sempre defendeu políticas de justiça social e inclusão, criticando abordagens filantrópicas superficiais.
“Ele sempre insistiu que a solução para os pobres não pode ser encontrada sem a participação dos próprios pobres. No Brasil, ele encontra uma realização desse sonho com as políticas sociais dos últimos governos”, afirmou o teólogo.
Leonardo Boff classificou Francisco como um “papa da ruptura”, destacando mudanças significativas promovidas pelo pontífice, como a decisão de morar em uma hospedaria em vez do palácio pontifício e a renúncia aos símbolos tradicionais de poder. O papa se define como bispo de Roma e pastor, e não como doutor da igreja, focando seu discurso no sofrimento humano.
“O mais importante que ele fez foi um deslocamento da igreja para o mundo. A igreja não é mais uma fortaleza cercada de inimigos, mas uma casa de portas abertas, onde todos podem entrar. Ele convoca os cristãos a se comprometerem na luta contra a pobreza, a defender a natureza, preservar a civilização e a vida”, explicou Boff.
Sobre a relevância da figura do papa no século XXI, Boff ressaltou que Francisco promove uma mudança no papel da igreja, colocando o mundo e seus desafios no centro do discurso e das práticas e convocando os fiéis a atuarem em questões sociais e ambientais.
Quanto a temas polêmicos como união homoafetiva, uso de preservativos e aborto, o teólogo observou que o papa ainda não abordou essas questões durante a visita ao Brasil, especialmente em seus discursos para os jovens. Ele acredita que Francisco focará na importância da fidelidade, do amor, da sobriedade e do consumo solidário, alertando contra a cultura consumista e materialista dominante.
“Ele vai incentivar os jovens a manterem um nível de espiritualidade, alimentando valores como solidariedade, amor, compaixão e a capacidade de sentir a dor do outro”, disse Leonardo Boff.
O papa também deve se reunir com bispos do Brasil e representantes da América Latina, ocasião em que reforçará a linha da Igreja Latina Americana, baseada no documento do encontro de Aparecida em 2007, do qual foi principal redator. Esse documento reafirma a opção pelos pobres, a necessidade de partir da realidade para a nova evangelização e a importância de criar esperança para os fiéis.
Leonardo Boff finalizou ressaltando que o papa Francisco representa uma mudança significativa na Igreja Católica, com uma postura mais próxima do povo, aberta ao mundo e comprometida com os desafios sociais e ambientais contemporâneos.



