Ligia Boareto traz a música ‘Construção’ de Chico Buarque, para explicar essa classificação de palavras; ouça o ‘Papo Certo’
No programa CBN Papo Certo desta quinta-feira, a linguista Lígia Boareto comentou um detalhe curioso de uma canção de Chico Buarque: todos os versos terminam com palavras proparoxítonas — um recurso raro e sofisticado na língua portuguesa. A observação serviu de ponto de partida para um esclarecimento sobre o uso e as diferenças entre palavras frequentemente confundidas, como tráfego, tráfico e trânsito.
A música e o efeito das proparoxítonas
Segundo Lígia, as proparoxítonas são palavras cuja sílaba tônica recai na antepenúltima sílaba. Exemplos citados no programa — flácido, público e tráfego — ilustram o padrão identificado na letra. O uso recorrente dessa classe de palavras confere à composição uma precisão rítmica e fonética que a linguista classificou como um primor literário, dada a raridade e a dificuldade de empregar proparoxítonas de forma consistente ao fim de versos.
Tráfego, tráfico e trânsito: diferenças e recomendações
Lígia destacou que, embora tráfego e tráfico sejam parônimas — palavras semelhantes na forma e na pronúncia —, seus sentidos não são sinônimos. Tráfego refere-se ao movimento de veículos, pessoas, cargas ou até de dados (por exemplo, tráfego aéreo, tráfego rodoviário, tráfego de pessoas e, no marketing digital, tráfego pago). Tráfico, por sua vez, carrega a ideia de atividade ilícita ou clandestina, como o tráfico de drogas, de armas ou de animais.
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Alguns dicionários já registram usos conflituosos entre tráfego e tráfico, refletindo práticas coloquiais em que os termos se aproximam. No entanto, gramáticos e especialistas recomendam cautela: evitar empregar tráfico com o sentido de trânsito para escapar de ambiguidade ou de conotação ilegal indesejada, sobretudo em reportagens e comunicados públicos.
Parônimas em foco: mandado e mandato
Outro exemplo de palavras que confundem ouvintes são mandado e mandato. Mandato refere-se ao período em que alguém eleito ocupa um cargo público; já mandado trata-se de um documento ou ordem formal no âmbito jurídico, como o mandado de prisão ou de busca. A linguista ressaltou que, mesmo conhecendo os significados, falantes frequentemente trocam os termos por semelhança fonética, o que pode gerar mal-entendidos em manchetes e comunicações oficiais.
Ao responder a perguntas de ouvintes, a reportagem lembrou que atenção ao vocabulário é importante especialmente em contextos informativos: uma palavra trocada pode alterar o sentido de uma notícia ou provocar interpretações equivocadas. A recomendação geral é preferir o termo mais preciso para evitar ambiguidade.