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Violência no futebol e masculinidade hegemônica

Um bate-papo com o Prof. Dr. Alexandre Fernandez Vaz (UFSC) e Prof. Dr. Bernardo Buarque de Hollanda
Violência no futebol e masculinidade hegemônica
Um bate-papo com o Prof. Dr. Alexandre Fernandez Vaz (UFSC) e Prof. Dr. Bernardo Buarque de Hollanda

Um bate-papo com o Prof. Dr. Alexandre Fernandez Vaz (UFSC) e Prof. Dr. Bernardo Buarque de Hollanda

O programa Nas Quatro Linhas, Violência no futebol e masculinidade hegemônica, da CBN Ribeirão Preto, comemorou sua centésima edição no dia 28 de setembro de 2024 com um debate aprofundado sobre a violência no futebol e sua relação com a masculinidade hegemônica. O encontro contou com a participação dos professores Bernardo Borges Boarque de Holanda, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e Alexandre Fernandes Vasse, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialistas que analisaram o fenômeno da violência no esporte sob perspectivas sociológicas, históricas e culturais.

Histórico e sociologia da violência no futebol

O professor Bernardo Borges Boarque de Holanda iniciou a conversa explicando que a relação entre violência e esporte é um tema clássico da sociologia, Violência no futebol e masculinidade hegemônica, especialmente a partir dos estudos do sociólogo Norbert Elias e seu parceiro Eric Dunning. Eles analisaram o processo civilizador na Inglaterra do século XIX, quando a codificação dos esportes modernos, como futebol, rugby e cricket, acompanhou a institucionalização do Estado moderno e a contenção da violência física. Elias e Dunning destacaram que o esporte funciona como uma sublimação simbólica da guerra, estabelecendo regras e punições para conter a violência dentro dos jogos, enquanto fora dos campos surgem conflitos entre torcidas, como o hooliganismo na Inglaterra dos anos 1960 e 1970.

Bernardo ressaltou que, embora o futebol seja um espetáculo que busca evitar a violência, episódios agressivos nas arquibancadas e arredores dos estádios são antigos e complexos. No Brasil, registros policiais e jornalísticos indicam que episódios de violência em jogos de futebol datam do início do século XX, antes mesmo da formalização das torcidas organizadas na década de 1940. A evolução das estruturas dos estádios, de simples arquibancadas de madeira para grandes estádios de concreto, acompanhou o crescimento da popularidade do futebol, mas também trouxe desafios para o controle da multidão.

Torcida organizada e escalada da violência: O professor destacou que as torcidas organizadas surgiram inicialmente como um meio de coordenar o apoio aos times, com grupos musicais e uniformes que incentivavam os jogadores. Exemplos como a Torcida Uniformizada do São Paulo, criada em 1940, mostram que líderes dessas torcidas chegaram a ocupar cargos públicos, como Laudo Natel, governador de São Paulo nos anos 1970. No entanto, a partir dos anos 1960, ocorreram dissidências dentro das torcidas, com o surgimento das torcidas jovens que passaram a adotar posturas críticas e até rebeldes em relação aos clubes. Nos anos 1980 e 1990, esses grupos cresceram significativamente e passaram a protagonizar confrontos violentos, fenômeno que se relaciona com transformações sociais mais amplas, como o aumento da violência urbana e a maior presença de armas.

Bernardo explicou que o poder público adotou medidas repressivas para conter a violência, como a proibição das torcidas organizadas e a implementação de jogos com torcida única, especialmente no estado de São Paulo. Essas ações, embora tenham efeitos pontuais, não conseguiram eliminar os confrontos, que persistem em diversas regiões do país. O professor ressaltou a necessidade de uma abordagem integrada que combine repressão qualificada, prevenção, inteligência policial e um processo reeducativo que envolva clubes, federações, confederações e demais agentes do futebol.

Masculinidade hegemônica e violência simbólica no futebol

O professor Alexandre Fernandes Vasse abordou a relação entre a violência no futebol e a socialização dos meninos no meio esportivo, destacando que o futebol tradicionalmente está associado a uma masculinidade hegemônica marcada por virilidade, agressividade e até homofobia. Ele explicou que essa masculinidade, embora não seja um atributo necessário ao esporte, está profundamente enraizada na cultura futebolística, tanto na prática do jogo quanto no comportamento dos torcedores.

Alexandre ressaltou que a linguagem utilizada nos estádios, muitas vezes violenta e homofóbica, reflete e reforça essa masculinidade catastrófica, termo que designa uma forma de masculinidade associada à violência e à intolerância. Ele defendeu a necessidade de reinventar e mobilizar outras formas de masculinidade no futebol, promovendo uma socialização que valorize o respeito, a diversidade e a não-violência, tanto dentro quanto fora de campo.

O professor também destacou que a violência simbólica presente nas redes sociais e nos meios de comunicação está relacionada aos episódios concretos de violência no futebol. A mobilização coletiva e a tribalização dos torcedores, alimentadas por discursos agressivos e intolerantes, contribuem para a escalada dos conflitos. Ele alertou que, embora as torcidas organizadas desempenhem papéis sociais importantes, não se pode ignorar a presença significativa de violência dentro desses grupos.

Informações adicionais

O debate evidenciou que a violência no futebol é um fenômeno multifacetado, que envolve fatores históricos, sociais, culturais e institucionais. As soluções demandam ações coordenadas e de longo prazo, que vão além da repressão policial, incluindo educação, mudança cultural e responsabilidade dos gestores do esporte. A compreensão crítica desses aspectos é fundamental para promover um ambiente esportivo mais seguro e saudável para todos.

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