Trabalhadores com a capacidade de ministrar os avanços tecnológicos terão mais espaço no mercado de trabalho
O avanço das tecnologias digitais tem dado origem, segundo pesquisadores e executivos, a um novo perfil profissional que alguns chamam de “transhumano”: trabalhadores cuja cognição e desempenho se ampliam pela integração constante com máquinas e sistemas inteligentes. A expressão foi discutida nesta segunda-feira pelo professor Dimas Facioli, que citou um artigo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) para explicar como essa tendência redesenha as fronteiras do trabalho.
O conceito de “mente estendida” e exemplos práticos
O conceito central vincula-se à chamada teoria da mente estendida, articulada por autores como Andy Clark e David Chalmers. Nessa perspectiva, ferramentas externas — de mapas digitais a bancos de dados e assistentes de IA — passam a funcionar como componentes cognitivos que ampliam a capacidade humana de tomar decisões e resolver problemas.
“O mapa eletrônico é um exemplo simples: ao inserir um endereço, você delega parte da memória e do raciocínio ao dispositivo”, explica Facioli. Essa externalização da cognição torna tarefas logísticas mais rápidas e precisas e, quando incorporada ao ambiente corporativo, tem potencial para aumentar produtividade e qualidade das entregas.
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Impacto nas organizações e desafios de adoção
Nos ambientes empresariais, a integração entre profissionais e dispositivos inteligentes traduz-se em interconexões diretas entre colaboradores, sistemas e vastos repositórios de dados. Para Facioli, organizações que disponibilizam essas tecnologias a seus times tendem a obter vantagens competitivas; profissionais que as utilizam com habilidade ampliam a capacidade analítica — tanto em tarefas técnicas quanto estratégicas.
Ao mesmo tempo, há desafios significativos: a adoção desigual de ferramentas gera mundos de trabalho distintos — empresas plenamente tecnológicas convivendo com outras de estrutura tradicional — e amplia desigualdades entre profissionais que têm acesso e domínio dessas tecnologias e os que não têm.
Conflito com a geração Z e implicações para contratação
Outro ponto levantado pelos debatedores foi o atrito entre empresas tradicionais e a chamada geração Z, que já chega ao mercado de trabalho com a “mente estendida” por hábitos digitais. Uma pesquisa nos Estados Unidos com 800 gestores mostrou que 4 em cada 10 responsáveis evitam contratar recém-formados dessa geração. Entre os motivos apontados estão falta de habilidade para conversar (citada por 52% dos entrevistados), roupas consideradas inadequadas e até o acompanhamento de pais em processos seletivos.
Para Facioli, o diagnóstico indica que tanto organizações quanto jovens precisam se ajustar: empresas devem investir em infraestrutura digital, inteligência artificial e modelos de gestão capazes de integrar essa força de trabalho multifuncional; por sua vez, os profissionais precisam adaptar competências comportamentais a ambientes formais quando necessário. Sem essa adaptação mútua, alertam os especialistas, empresas correm o risco de perder não só talentos como também clientes habituados a serviços e produtos digitais.
A transformação do mercado é rápida e exige decisões imediatas: adaptar processos, treinar pessoas e incorporar tecnologias deixou de ser opção estratégica para tornar-se condição básica de competitividade.