Professor explica como funciona uma pesquisa que tem foco em combater arboviroses; ouça o orientador Fernando Costa
Durante a pandemia, um grupo de pesquisadores da universidade liderado pelo professor Fernando Costa obteve resultados promissores ao testar compostos isolados do lúpulo contra vírus tropicais. O trabalho, que partiu de uma mudança de foco forçada pelo fechamento dos laboratórios em 2020 e 2021, aproveitou materiais originalmente destinados a estudos sobre cannabis e resultou em um artigo científico publicado pelos autores.
Origem e adaptação do projeto
O projeto começou como um paralelo à pesquisa sobre cannabis, planta da mesma família botânica do lúpulo. Com a impossibilidade de seguir o plano inicial durante o período mais restrito da pandemia, a equipe — incluindo uma pós-doutoranda de origem búlgara que aprendeu técnicas específicas na França — decidiu testar o material disponível em estudos com células e vírus. “Foi uma surpresa bem-vinda”, disse o professor Fernando Costa ao comentar a mudança de rota e a execução rápida dos testes.
Resultados e limites do estudo
Os experimentos foram realizados in vitro, em células Vero (linhagem de células de mamífero), e mostraram que substâncias isoladas do lúpulo foram ativas contra os vírus da chikungunya e do Oropouche. Costa ressalta, no entanto, que se trata de uma etapa inicial: “ainda não foi testado em humanos”, afirmou, lembrando que inibição em cultura celular não equivale a eficácia clínica. O pesquisador também rejeitou interpretações simplistas, como a ideia de que beber cerveja proteja contra infecções — os compostos testados não correspondem ao extrato usado na fabricação da bebida.
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Potencial e próximos passos
O lúpulo é uma planta cujas flores (conhecidas comercialmente como cones) produzem glândulas que liberam compostos importantes para aroma e amargor na cerveja. Diferentemente da cannabis, o lúpulo não contém os mesmos compostos psicoativos, o que facilita sua manipulação e cultivo para fins farmacológicos. Ainda é necessário avançar para estudos em modelos animais e ensaios clínicos para avaliar segurança, dosagem e eficácia na prevenção ou tratamento de doenças causadas por esses vírus.
Os pesquisadores destacam a relevância do achado diante do risco de circulação dos vírus na região sudeste do Brasil — a chikungunya compartilha o mesmo vetor da dengue, o Aedes aegypti, enquanto o Oropouche é transmitido por Culicoides paraensis e já é registrado em áreas da Amazônia. A continuação da pesquisa depende de novos experimentos e da colaboração entre grupos para transformar achados laboratorias em aplicações práticas.



