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Acordo entre União Europeia e Mercosul gera debate sobre impactos no agronegócio

Especialista aponta que tratado pode trazer mais vantagens para europeus e levanta preocupações para setores fortes da região
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Reprodução/Portal gov.br

A assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, anunciada na semana passada, reacendeu debates sobre os possíveis efeitos práticos da parceria para o Brasil. Apesar de parecer distante do cotidiano da população, o tratado pode influenciar preços, exportações e setores estratégicos da economia.

Para entender o que muda na prática, especialmente para a região de Ribeirão Preto, a CBN conversou com o professor e especialista em agronegócio José Luiz Coelho, que avalia o acordo como complexo e ainda longe de um desfecho definitivo.

Negociação

Segundo o especialista, o acordo vem sendo negociado há 26 anos e enfrentou resistência principalmente de países europeus. Ele afirma que a pauta ambiental foi usada como argumento político para proteger agricultores europeus, sobretudo da França.

Na avaliação de Coelho, a preocupação central da União Europeia sempre foi a competitividade do agronegócio brasileiro, considerado hoje um dos mais eficientes do mundo em produtividade e custos.

Competitividade

O professor destaca que o Brasil consegue produzir alimentos em maior escala e com menor custo em comparação à Europa, mesmo sem os mesmos níveis de subsídios concedidos aos produtores europeus.

Essa diferença gera receio entre agricultores do bloco europeu, que temem perder espaço no mercado caso haja abertura maior para produtos do Mercosul, especialmente carnes, grãos e derivados.

Mercado

O acordo envolveria um mercado de cerca de 750 milhões de consumidores, somando países do Mercosul e da União Europeia. No entanto, segundo o especialista, o Brasil já acessa muitos desses mercados, o que limita ganhos adicionais imediatos.

Por outro lado, ele avalia que o país pode enfrentar mais riscos do que benefícios diretos, já que produtos europeus têm pouco apelo para o consumo da população brasileira devido ao alto custo.

Produtividade

Entre os fatores que explicam a vantagem brasileira estão o clima, a disponibilidade de terra, a abundância de água e o uso de tecnologia no campo. O Brasil consegue realizar até duas safras por ano em grande parte do território, algo inviável na Europa.

Além disso, ciclos produtivos mais curtos, como no cultivo de grãos e florestas plantadas, aumentam a eficiência e reduzem custos, ampliando a competitividade frente aos produtores europeus.

Subsídios

De acordo com Coelho, agricultores europeus dependem fortemente de subsídios governamentais. Em alguns casos, como na produção de queijos, esses incentivos representam a maioria da renda do produtor.

Com o acordo, esses setores temem não conseguir competir com produtos do Mercosul, que não contam com os mesmos incentivos estatais e chegam ao mercado com preços mais baixos.

Região

O especialista alerta para possíveis impactos negativos em regiões produtoras do interior paulista, especialmente nos setores de açúcar, etanol e carnes, áreas em que o Brasil é altamente competitivo.

Segundo ele, países europeus mantêm subsídios mesmo em cadeias produtivas menos eficientes, como o açúcar de beterraba, o que pode gerar distorções no comércio internacional.

Próximos passos

Apesar do anúncio, o acordo ainda precisa passar por novas etapas. A previsão é de assinatura formal nos próximos dias, mas o tratado depende da aprovação do Parlamento Europeu para entrar em vigor.

Para o professor, ainda é cedo para comemorar. Ele define o acordo como um “casamento forçado”, que não entusiasma plenamente nem o Brasil, nem a União Europeia.

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