Ouça o 1º bloco do programa de 28 de setembro
O Amanaque CBN Ribeirão de hoje aborda um tema cada vez mais relevante: o nascimento e a humanização do parto. A discussão ganhou força na mídia recentemente, impulsionada por um filme e pela aprovação, no Senado, de um projeto de lei que visa atenção especial às gestantes. Para aprofundar o assunto, recebemos a Dra. Flávia Macial de Aguiar, professora da Barão de Mauá e ginecologista/obstetra no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, especificamente na maternidade do HC. Neste sábado, ocorre uma jornada de assistência materno infantil e cirurgia ginecológica, e dedicaremos o programa a esses temas.
A Evolução do Conceito de Parto Humanizado
Para entender o conceito de parto humanizado, é preciso revisitar a história. Antigamente, os partos aconteciam em domicílio, com a mulher cercada por familiares e assistida por uma parteira. A partir das décadas de 70 e 80, com a institucionalização do nascimento, os hospitais assumiram o protagonismo, e o processo passou a ser guiado pela assistência médica. A mulher, então, perdeu o controle sobre o próprio parto.
O ambiente hospitalar, aliado a questões de remuneração médica e à formação intervencionista dos profissionais, resultou em uma série de procedimentos rotineiros, muitas vezes desnecessários e prejudiciais. O parto hospitalar tradicional tornou-se uma linha de produção, igual para todas as mulheres, sem respeito às individualidades. Procedimentos como punção venosa, soro com ocitocina, restrição de movimentação e alimentação, ausência de acompanhante (apesar da lei que garante esse direito) e a posição de litotomia (deitada com as pernas abertas) tornaram-se comuns.
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A humanização do nascimento busca resgatar o protagonismo da mulher, permitindo que ela decida onde e como quer dar à luz. A maioria das intervenções não é necessária, e a mulher deve ter a liberdade de parir da forma mais fisiológica possível, conforme comprovam estudos científicos.
Riscos e Benefícios: Parto Natural vs. Cesariana
Apesar dos riscos associados ao parto natural, o aumento das cesarianas também preocupa. Muitas mulheres evitam o parto normal devido à assistência hospitalar inadequada, que envolve um ambiente frio, procedimentos invasivos e falta de suporte para a dor. Em contrapartida, alguns médicos preferem a cesariana pela praticidade e maior remuneração.
Essa combinação de fatores elevou os índices de cesariana, que apresentam maiores riscos para a mãe e para o bebê. A cesariana aumenta de 3 a 5 vezes o risco de morte materna em comparação com o parto normal. O parto natural, quando bem assistido e respeitando a fisiologia do corpo, oferece menores riscos e benefícios tanto para a mãe quanto para o bebê, comprovados cientificamente.
Preparando os Profissionais para o Parto Normal
Para resgatar a capacidade dos médicos em conduzir o trabalho de parto normal, é fundamental uma mudança de postura e de olhar para a mulher. O parto deve ser visto como um momento único e especial na vida da paciente, e não apenas mais um procedimento. É preciso sensibilidade para garantir que a mulher receba o bebê com aconchego, respeito e carinho, sem violar seus direitos.
Os médicos que não praticam o parto normal há muitos anos precisam de treinamento para conduzir o trabalho de parto. Além disso, toda a equipe – médicos, enfermeiros, nutricionistas e até mesmo o porteiro – deve estar preparada para acolher a mulher com um olhar especial.
Alternativas: Casas de Parto e o Papel da Doula
As casas de parto surgem como uma alternativa para mulheres de baixo risco darem à luz em um ambiente mais natural, sem a presença constante de um médico. Nesses locais, a assistência é realizada por enfermeiras obstétricas ou obstetrizes, profissionais capacitadas para acompanhar partos de baixo risco. Em caso de intercorrências, a mulher é transferida para um hospital.
Outra figura importante no processo de humanização do parto é a doula, profissional que oferece suporte emocional à mulher durante o trabalho de parto. A doula auxilia com exercícios, posições, massagens e métodos não farmacológicos para o controle da dor, como banhos e exercícios na bola de pilates.
Em suma, a busca por um parto mais humanizado representa um movimento em prol do respeito à fisiologia da mulher e do protagonismo da gestante no momento do nascimento de seu filho. A mudança de mentalidade dos profissionais de saúde, o investimento em capacitação e a oferta de alternativas como as casas de parto são passos importantes para garantir uma experiência mais positiva e segura para mães e bebês.



