O Brasil ampliou a oferta de cuidados paliativos nos últimos anos, mas o acesso a esse tipo de atendimento ainda está distante do necessário para atender pessoas que convivem com doenças graves. Segundo o médico especialista em medicina geriátrica Douglas Crispim, membro da Organização Nacional de Acreditação, a maioria dos pacientes e familiares ainda enfrenta dificuldades para encontrar esse cuidado, tanto na rede pública quanto na privada.
Em entrevista à CBN Ribeirão Preto, o especialista explicou que os cuidados paliativos têm como objetivo prevenir e aliviar o sofrimento provocado por doenças que podem ameaçar a vida. O acompanhamento pode começar ainda nas fases iniciais e não deve ser associado apenas aos momentos finais da vida.
Douglas Crispim também defendeu maior divulgação sobre o tema, além da ampliação das políticas públicas e da definição de critérios para garantir que os serviços ofereçam esse tipo de cuidado de forma adequada.
Falta de acesso
Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, o especialista afirmou que o Brasil ainda está longe de alcançar uma estrutura mínima para atender toda a população que necessita de cuidados paliativos.
Leia também
Segundo ele, a maioria das pessoas que convive com uma doença grave, ou tem um familiar nessa situação, não encontra esse atendimento de forma acessível. Os leitos especializados, chamados de hospices, estão concentrados principalmente na rede privada.
Douglas Crispim ressaltou, no entanto, que os leitos especializados representam apenas uma parte da estrutura necessária. Grande parte dos pacientes pode receber cuidados paliativos desde a atenção primária e em atendimentos fora do ambiente hospitalar.
A região Sudeste concentra cerca de 40% dos hospices mencionados durante a entrevista. O médico destacou que, embora o Sudeste e o Centro-Oeste tenham maior oferta por milhão de habitantes, ainda existem lacunas importantes no acesso aos serviços.
Cuidado integral
Os cuidados paliativos envolvem uma avaliação multiprofissional e não são realizados apenas por médicos. O atendimento considera o estágio da doença e as necessidades específicas de cada paciente para a definição de um plano de cuidados.
Além dos aspectos físicos, o acompanhamento pode envolver questões psicológicas, familiares e existenciais. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, nutricionistas e outros profissionais podem participar desse processo.
O suporte também pode ser direcionado aos familiares e cuidadores, inclusive após a morte do paciente, durante o período de luto. Segundo o especialista, a falta de acompanhamento pode ampliar uma cadeia de sofrimento entre as pessoas envolvidas.
Além do fim
Douglas Crispim destacou que um dos desafios é mudar a percepção de que os cuidados paliativos estão relacionados exclusivamente ao fim da vida. Segundo ele, há pacientes que permanecem nesse tipo de acompanhamento por 10, 15 ou até 20 anos.
Para o médico, é importante que as famílias conversem abertamente sobre como cada pessoa gostaria de ser cuidada diante de uma doença grave, especialmente em situações em que o paciente não consiga comunicar seus desejos e valores.
O especialista defendeu que o tema esteja mais presente nas discussões familiares e nas políticas públicas, com o objetivo de garantir que o cuidado com a dignidade acompanhe o tratamento da saúde.



