Quem fala das características destas pessoas e seus receios é o gestor de carreiras, Virgílio Marques dos Santos
O Brasil lidera o ranking de jovens que não estudam nem trabalham, Parte do grupo quem não estuda e nem trabalha, uma situação conhecida como “nem-nem”. Em 2023, 20,6% dos jovens brasileiros estavam nessa condição, segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em comparação, a taxa na Argentina é de 15%, no Chile 15,3% e na Bolívia menos de 10%.
O fenômeno nem-nem é frequentemente interpretado como um problema individual, Parte do grupo quem não estuda e nem trabalha, atribuído à falta de vontade dos jovens em estudar ou trabalhar. No entanto, especialistas apontam que se trata de uma questão social e econômica complexa. Virgílio Marques dos Santos, gestor de carreiras e doutor em engenharia mecânica, explica que esses jovens geralmente dependem do suporte familiar para sua subsistência. Muitas vezes, especialmente no caso de mulheres negras, eles realizam trabalho doméstico não remunerado, que não é contabilizado nas estatísticas oficiais.
Contexto econômico e impacto da pandemia
Segundo Virgílio, a pandemia de Covid-19 agravou a situação dos jovens nem-nem no Brasil. Durante o período de isolamento, o país sofreu uma forte desaceleração econômica. Na retomada, as vagas de emprego foram majoritariamente ocupadas por trabalhadores mais experientes, enquanto os jovens que concluíam o ensino médio enfrentaram dificuldades para ingressar no mercado de trabalho ou no ensino superior, muitas vezes por falta de condições financeiras.
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Além disso, o ensino médio foi prejudicado durante a pandemia, resultando em uma formação deficiente para muitos jovens. As empresas, por sua vez, relutaram em investir na contratação desses profissionais menos qualificados, preferindo candidatos com mais experiência. Isso contribuiu para a permanência de muitos jovens na condição de nem-nem.
Salários e mercado de trabalho: Outro fator apontado é a redução dos salários oferecidos a jovens durante a pandemia. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indicam que a massa salarial começou a apresentar crescimento apenas em 2024, após um período de estagnação.
Virgílio destaca que, na retomada econômica, as empresas passaram a oferecer salários baixos para contratar profissionais mais qualificados, o que desmotivou muitos jovens a aceitar essas condições. O mercado de trabalho brasileiro voltou a apresentar indicadores de desemprego semelhantes aos de 2014, mas a demanda por mão de obra tem privilegiado trabalhadores mais velhos e experientes, sem aumento significativo de vagas para jovens com ensino médio completo ou incompleto.
Alguns jovens optam por trabalhos informais, como bicos ou a formalização via Microempreendedor Individual (MEI), que não são contabilizados nas estatísticas oficiais de nem-nem. Essa realidade evidencia a complexidade do problema, que envolve tanto a falta de oportunidades quanto a precariedade das condições oferecidas.
Desigualdade de gênero e barreiras sociais
A predominância feminina entre os jovens nem-nem é significativa: a cada três jovens nessa condição, duas são mulheres, especialmente jovens negras de baixa renda. Elas enfrentam barreiras adicionais, como a responsabilidade desproporcional pelos cuidados domésticos e familiares, além da falta de políticas públicas eficazes para apoiar a maternidade e a inserção no mercado de trabalho.
Muitas dessas mulheres precisam ajudar financeiramente em casa ou cuidar de parentes doentes, o que limita seu tempo para estudos ou atividades remuneradas. O trabalho doméstico não remunerado, embora essencial, não é computado nas estatísticas oficiais, o que invisibiliza essa parcela da população.
Comportamento da geração Z e novas perspectivas: A geração Z, composta por jovens nascidos entre 1995 e 2010, apresenta características distintas em relação às gerações anteriores. Cresceram com acesso constante a dispositivos tecnológicos e redes sociais, o que influencia suas expectativas e comportamentos no mercado de trabalho.
Virgílio observa que muitos jovens dessa geração demonstram incômodo com ambientes de trabalho tradicionais, que exigem longas jornadas presenciais e limitam o acesso a tecnologias digitais. Além disso, há uma tendência crescente de buscar alternativas como a produção de conteúdo digital e o empreendedorismo online, motivados pelo sucesso de influenciadores digitais que ganharam visibilidade e renda significativa.
Esse fenômeno não é restrito às classes sociais mais vulneráveis; jovens das classes B e B- também manifestam esse comportamento, optando por experiências profissionais curtas e diversificadas, em vez de compromissos longos em uma única empresa. A busca por autonomia e flexibilidade tem levado muitos a priorizar carreiras que consideram mais estimulantes e alinhadas com seus interesses, ainda que essas opções envolvam riscos e incertezas.
Desafios e soluções para o futuro: Resolver o problema dos jovens nem-nem no Brasil é um desafio complexo. Virgílio destaca que o tempo perdido nessa fase da vida é crucial para o desenvolvimento profissional, pois é quando se formam habilidades e conhecimentos essenciais para o futuro. Além disso, o país já perdeu o bônus demográfico, o que torna ainda mais urgente a inclusão desses jovens no mercado de trabalho.
É necessário implementar políticas públicas que promovam a inclusão social e econômica dos jovens, especialmente aqueles provenientes de classes sociais menos privilegiadas. Também é importante combater a falsa ilusão de riqueza fácil propagada por influenciadores digitais, que pode levar muitos jovens a desperdiçar oportunidades valiosas de desenvolvimento profissional.
Para os pais, Virgílio recomenda incentivar os filhos a buscar experiências de trabalho, mesmo que não remuneradas, durante os períodos de férias ou enquanto estudam. O contato com o ambiente profissional é fundamental para o aprendizado, desenvolvimento de competências e construção de uma carreira sólida. O estímulo ao estudo deve ser mantido, mas aliado a uma vivência prática que prepare o jovem para os desafios do mercado de trabalho.
Virgílio Marques dos Santos, gestor de carreiras e doutor em engenharia mecânica, participou de entrevista na CBN para discutir o tema e contribuir com orientações para jovens e famílias.



