Produção, que era totalmente artesanal, passava pelas mãos do público feminino; ouça a coluna ‘Cerveja de Conteúdo’
O mestre cervejeiro Carlos Braguinho retomou sua coluna semanal para destacar a participação feminina na história e no mercado atual da cerveja. Em conversa com a equipe, ele traçou um panorama que vai desde as origens ancestrais da produção até os movimentos recentes que buscam reposicionar mulheres como protagonistas no setor.
Origens femininas da produção de cerveja
Segundo Braguinho, a produção de cerveja tem origem em práticas domésticas tipicamente femininas: mulheres que preparavam alimentos e bebidas fermentadas para suas comunidades. Esses conhecimentos incluíam botânica, uso de ervas e técnicas culinárias que, ao longo do tempo, se confundiram com práticas ritualísticas nas culturas pagãs do Leste Europeu. O especialista lembrou que, antes da ciência moderna, fenômenos de fermentação e cura eram frequentemente atribuídos a forças sobrenaturais, o que acabou por estigmatizar essas mulheres.
Estigmatização, mitos e o deslocamento do protagonismo
Braguinho explicou como símbolos como gatos, vassouras e chapéus pontudos — hoje associados às figuras de bruxas — tinham funções práticas: proteção do estoque, higiene do ambiente de produção e identificação social. Ele também citou personagens históricas que, segundo ele, são lembradas por sua relação com ingredientes e práticas cervejeiras, como a religiosa mencionada no programa, identificada pelo especialista como Idegard Van Bielden. A masculinização da produção cercejeira, acelerada pela Revolução Industrial, deslocou muitas mulheres das funções produtivas e gerenciais que preenchiam até então.
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Retomada do espaço e iniciativas atuais
Na avaliação de Braguinho, há um movimento de retomada do protagonismo feminino na cerveja, visível tanto na presença de mestras cervejeiras quanto na gestão de cervejarias por mulheres. Ele citou um projeto paulista — liderado por mulheres e reunindo 26 cervejarias comandadas por mulheres — que pretende lançar rótulos em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. O mestre também lembrou exemplos globais, como a descoberta do saquê no Japão atribuída a mulheres em relatos tradicionais, para reforçar que a influência feminina sobre bebidas fermentadas é antiga e contínua.
Braguinho finalizou recordando que a coluna semanal nasceu como um espaço de diálogo sobre cerveja e agradecendo a colaboração de nomes ligados ao projeto, como Taiga, Casarini e Bia Morim. Para ele, pequenas iniciativas coletivas ajudam a devolver ao mercado um protagonismo que, na sua avaliação, nunca deveria ter sido perdido.