Os afastamentos do trabalho relacionados à síndrome de burnout cresceram 296% no Brasil entre 2023 e 2025, passando de 1.760 para 6.985 casos. O aumento acende um alerta sobre a saúde mental dos trabalhadores e os fatores que contribuem para o esgotamento profissional. Os dados foram apresentados com base em informações da Associação Nacional de Medicina do Trabalho e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Em entrevista à CBN Ribeirão Preto, a psicóloga, psicanalista e escritora Fabiana Ratti, que tem 25 anos de experiência, avaliou que o problema não está restrito ao ambiente profissional. Segundo ela, a dificuldade de se desconectar das telas, a rotina sobrecarregada e a falta de momentos de descanso e reflexão também contribuem para o desgaste emocional.
“Como psicanalista, do meu ponto de vista, o que mais está influenciando o burnout desta forma assustadora é o convite que temos na sociedade de estar 100% ligado o dia todo”, afirmou.
Sobrecarga
Para Fabiana, o uso constante de celulares, aplicativos e redes sociais dificulta o descanso físico e mental. Ela observa que muitas pessoas continuam consumindo conteúdos digitais até a hora de dormir e retomam essa rotina assim que acordam, sem reservar tempo para relaxar.
A especialista também destaca fatores do próprio ambiente de trabalho, como excesso de demandas, cobranças, relações profissionais hostis e condições físicas desconfortáveis. Segundo ela, cada pessoa pode reagir de maneira diferente a esses fatores, por isso é importante identificar o que provoca incômodo e buscar alternativas para enfrentar o problema.
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Outro ponto de atenção é a transferência das tarefas de funcionários que deixam a empresa para aqueles que permanecem na equipe. De acordo com Fabiana, essa prática aumenta a sobrecarga, principalmente quando o trabalhador já está próximo do limite.
Autocobrança
A dificuldade de estabelecer limites também contribui para o esgotamento. Segundo a psicanalista, profissionais que buscam reconhecimento e se mostram sempre disponíveis podem acabar recebendo cada vez mais tarefas, sem que isso resulte necessariamente em valorização.
“Vou pedir para aquele que dá conta. Então, o funcionário quer ser bem visto, quer reconhecimento, mas o que ele consegue é apenas mais carga de trabalho”, explicou.
O medo de perder o emprego, de não atingir metas ou de ser substituído faz com que muitos continuem trabalhando mesmo quando já apresentam sinais de desgaste. Fabiana também identifica a autocobrança como um fator frequente, que impede algumas pessoas de fazer pausas ou encerrar o expediente mais cedo, mesmo quando poderiam fazê-lo.
Prevenção
Para a especialista, as empresas precisam criar canais de escuta para que os funcionários possam relatar dificuldades e sugerir mudanças. Ela também defende melhorias no ambiente de trabalho, atenção às relações profissionais e capacitação das lideranças para lidar com as equipes.
“Se houver um bom espaço de ouvidoria para o funcionário poder realmente dizer o que estaria incomodando, seria um bom começo”, afirmou. Segundo ela, ouvir os trabalhadores pode ajudar a identificar problemas e encontrar soluções antes que o sofrimento se intensifique.
Para quem já percebe sinais de esgotamento, Fabiana recomenda incorporar cuidados com a saúde mental à rotina, em vez de procurar ajuda apenas quando a situação chega ao limite. Entre os pontos destacados estão manter hábitos de sono, reduzir o tempo diante das telas, reservar momentos de descanso e cuidar das relações pessoais.
A psicóloga também ressalta a importância de cultivar interesses, projetos e objetivos que deem sentido à vida para além do trabalho. Na avaliação dela, cuidar da saúde emocional precisa ser uma prática diária, assim como outros hábitos de cuidado pessoal.



