O aumento das autorizações familiares para doação de órgãos no estado de São Paulo tem renovado a esperança de milhares de pacientes que aguardam por um transplante. Dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram que, até o fim de abril deste ano, foram registradas 345 autorizações, número superior às 322 contabilizadas em 2025 e às 317 registradas durante todo o ano de 2024.
O tema ganhou destaque após a história de Juliana Reijane Neo, de 25 anos, moradora de São Carlos. Após a confirmação da morte encefálica, causada por uma meningite bacteriana, os pais e o irmão autorizaram a doação dos órgãos. O gesto beneficiou cinco pessoas que aguardavam transplantes em Barretos, Ribeirão Preto e na capital paulista.
Fila crescente
Mesmo sendo o segundo maior país transplantador do mundo, com mais de 30 mil procedimentos realizados em 2024, o Brasil ainda enfrenta uma extensa fila de espera. Até abril deste ano, mais de 28,9 mil pessoas aguardavam por um transplante no estado de São Paulo.
Segundo o médico nefrologista Filipe Miranda Bernardes, esse número pode ser ainda maior, já que há pacientes que ainda não conseguiram ingressar na fila. Ele cita como exemplo pessoas que fazem hemodiálise e que ainda não foram inscritas para um transplante de rim, ampliando o desequilíbrio entre a demanda e a oferta de órgãos.
O especialista destaca que o crescimento das autorizações familiares demonstra um avanço na conscientização da população sobre a importância da doação, embora ainda exista espaço para ampliar esse número.
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Desafios
Entre os principais obstáculos para a doação estão a desinformação e os mitos envolvendo a morte encefálica. De acordo com o médico, muitas famílias ainda têm dificuldade em compreender o diagnóstico, o que torna ainda mais delicado o momento da decisão.
Outro fator apontado é a existência de crenças equivocadas sobre aspectos religiosos. Segundo o especialista, as diferentes religiões estimulam a doação de órgãos como um ato de cuidado e solidariedade, mas essas informações nem sempre chegam às famílias no momento da perda.
O acolhimento das equipes hospitalares também é considerado fundamental. O primeiro contato com os familiares, aliado ao diálogo e à explicação sobre todo o processo, pode contribuir para uma decisão consciente sobre a doação.
Processo
O médico explica que a captação de órgãos envolve uma operação complexa e precisa ocorrer com rapidez. Após a identificação de um potencial doador, as equipes hospitalares acionam a central responsável, que coordena todas as etapas necessárias para viabilizar o transplante.
A logística conta com a integração entre hospitais, serviços públicos e privados e órgãos governamentais. Em alguns casos, aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) são utilizadas para transportar órgãos entre diferentes regiões do país, garantindo que o transplante ocorra dentro do tempo de viabilidade de cada órgão.
Além de órgãos como coração, pulmões, fígado e rins, também podem ser doados tecidos como córneas, pele e ossos. Segundo o especialista, um único doador pode salvar até oito vidas e beneficiar dezenas de outras pessoas com a melhoria da qualidade de vida proporcionada pelos transplantes de tecidos.



